24.2.26

“Isso Non Ecziste”

Oscar Quevedo, S.J. (1930-2019), tornou-se famoso no Brasil por dizer que certas coisas, como os fenômenos preternaturais, simplesmente “non eczistem” — pronúncia dada pelo sotaque misturado do português com o espanhol. Algo nisso tudo, para além da caricatura, terminou chamando a atenção.
Rei Josias Limpa a Terra dos Ídolos. William Hole.
1. Se proposital, parece-nos que tal caricatura, de um jesuíta com sotaque estranho, ocultava algo polêmico. No “Programa do Jô”, Quevedo, explicando que demônios “non eczistem” (ao próprio, do lado dele), falou que Jesus Cristo, quando foi tentado pelo demônio (Mt 4, 1-11; Mc 1, 12s; Lc 4, 1-13), foi por Ele mesmo ao invés do diabo.
2. Explicou naquele programa que demônios eram atributos dos problemas dos homens, doenças (cegueira, paralisias, epilepsias etc.), que por conta da noção grega, atribuía-se às entidades de intermédio ou deuses menores, motivo pelo qual Nosso Senhor não foi tentado no deserto por algum diabo, mar por Ele mesmo.

3. Há de se concordar com Quevedo no tocante às doenças que ainda são objetos da crendice supersticiosa, como se vê no protestantismo e comunidades que insistem num “catolicismo” paradoxalmente cismático. As alienações que acontecem com tais adeptos dão provas de que as enfermidades são colocadas às margens da ciência.

4. Diga-se de passagem, muito da ciência se deve à Igreja — como ainda hoje! Todavia, diante de um tópico teológico, próprio da fé, Quevedo estende a parapsicologia, que ele procurou defender a vida toda, para além do alcance, errando a doutrina que observa Satanás não como uma ação da psíquica, mas, neste ponto, por sua literalidade.

5. Poderíamos percorrer os volumes do “Catena Áurea”, de São Tomás de Aquino, só para dizer o óbvio: que Ele foi tentado pelo “demônio”, que era “Satanás”. Ou as palavras, dessa forma, estão todas equivocadas no Evangelho de Jesus Cristo, segundo Mateus, Marcos e Lucas, ou Quevedo ignorou a inteligência dos evangelistas.

6. Mateus e Lucas se referem ao “demônio”, porém, Marcos remete a “Satanás”, variando a palavra de um mesmo contexto, embora para ambos os casos os significados só corroborem uma compreensão: que foi Nosso Senhor tentado por alguém que não Ele mesmo. Por que Quevedo subverte o Evangelho?

7. Resposta: para que nele caiba suas teses parapsicológicas, que não admitem a existência de demônios (assim como anjos, vale dizer). Não é que a parapsicologia esteja toda errada, pois como área aberta ao estudo, certamente contará com melhores horizontes. Apenas essa opinião de Quevedo é que é herética.

8. Estranho Quevedo ser mencionado no livro de Francesco Scalzotto, qual seja, “Fui Espião!”, objetivando demonstrar as “ordenações de falsos padres na Igreja do Brasil” pela ação da famigerada Propaganda Dois — P2, loja maçônica italiana que causou graves problemas à Igreja, incluindo as infiltrações de agentes no clero.

9. Todo o livro, datado de 1986 pelo editor, digna-se às evidentes suspeitas, dado o autor (que não é o jovem padre da Diocese de Bolonha) se colocar como um desses maçons. Contudo, Quevedo, sobretudo por seu trabalho “Antes que os Demônios Voltem”, termina dando algum ar de fundamento para essa denúncia.
    Para referenciar esta postagem:
ROCHA, Pedro. “Isso Non Ecziste”. Enquirídio. Maceió, 24 fev. 2026. Disponível em https://www.enquiridio.org/2026/02/isso-non-ecziste.html.

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