Esoterismo é individualismo

Apesar deste Enquirídio ter questionado se ainda existe espaço para o esoterismo, apresentando algumas considerações bem pontuais sobre o assunto e revelando uma conclusão estritamente particular, existe uma outra questão muito pertinente acerca das práticas esotéricas que, por si só, demonstram um quadro paradoxal sobre a sua existência: o individualismo.


Primeiro é necessário entender a premissa do individualismo, qual seja, modo de perceber e expressar conforme as próprias convicções. Noutras palavras, significa que uma das grandes questões envolvendo o esoterismo se relaciona com a capacidade de o ser humano determinar segundo sua compreensão, neste ponto, criando um universo completamente paralelo.

Este paralelismo não é tão simples de entender, uma vez que não necessariamente acontece por vontade, mas em decorrência de uma série de fatores interdependentes. Apenas para esboçar uma ideia acerca disso, deixando claro a complexidade desse fenômeno, alguém pode sustentar dois pontos de vista diferentes sobre a mesma questão sem entrar em contradição ou gerar qualquer tipo de relativismo. Basta que haja alteração em seu espaço-tempo (conceito não físico), seja interna ou externamente, sutil ou tangencialmente, mental ou corporalmente etc. Portanto, dentro de uma perspectiva esotérica, pode haver um universo completamente paralelo que não cause incompatibilidade com outros, embora agrave o problema do individualismo.

Agrava no sentido de que, para explicar este universo sob uma perspectiva paralela, é necessário ter uma linguagem convencionada, onde o valor de um símbolo (palavra, forma, gesto etc.) seja o mesmo para uma e outra pessoa. Entretanto, toda convenção resulta de imposição ou adesão e, neste caso, impor ou aderir não são o mesmo que mandar e aceitar.

Uma criança pequena, ao aprender as primeiras palavras, adere ao vocabulário por necessidade de comunicação, tal qual seu responsável, que lhe impõe o idioma melhor convencionado aos interesses daquela educação, não significando, portanto, aceitar (aderir) ou mandar (impor). Contrapor esta ordem natural seria apenas uma tentativa frustrada de relativização.

Como dito, entender o paralelismo é complexo, sendo muito complicado explicá-lo de maneira coerente. Assim surge o problema do individualismo, quando diante da ausência (ou escassez) de convenções simbólicas, a linguagem se torna insuficiente para transmitir informações, principalmente quando relacionadas ao esoterismo - fechando-se o ciclo.

Equacionando o assunto

Se fosse possível equacionar o esboço apresentado, poder-se-ia fazê-lo dizendo que quanto maior é a convenção simbólica (Cs), menor é o paralelismo (Pa), porém, quando multiplicado ao espaço-tempo (Et), surge o problema do dogma (Do), sinônimo de norma ou regra. Conteúdos dogmáticos tendem a não serem esotéricos (Es), mas tão somente exotéricos (Ex). Reescrevendo em equações: 

a) Cs > Pa * Et = Do
   (Cs) maior que (Pa) multiplicado por (Et) é igual a (Do)

b) Do * Et = Es < Ex
   (Do) multiplicado por (Et) é igual a (Es) menor que (Ex)

c) Es = Pa > Cs * Et
   (Es) é igual a (Pa) maior que (Cs) multiplicado por (Et)

Observe a primeira equação. Ela diz que quando houver maior convenção simbólica, menor será a ocorrência de paralelismo no espaço-tempo, portanto, sendo o mesmo que dogma. Como resultado, surge a segunda expressão, onde o conteúdo dogmático vezes a mesma medida "Et" resulta em um esoterismo menor (e não inexistente) que o exoterismo, que significa, em resumo, tudo aquilo que é passível de transmissão em massa. Finalmente, consoante a terceira, mas não última, maneira de equacionar o raciocínio trazido até então, sempre existirá a possibilidade de "Es" quando o "Pa" for maior do que "Cs" multiplicado pelo espaço-tempo. Agora, certamente é justo aplicar estas formulações em momentos da história ou no presente contexto em busca de alguma validação.

Tomando a religião católica como exemplo, certamente as equações "a" e "b" unificadas conseguem expressar sua configuração em termos de maior ou menor esoterismo, embora este ainda exista, mas sob uma terminologia diferente: mística cristã (jamais misticismo). Existe uma convenção simbólica muito maior do que qualquer paralelismo que possa ter acontecido ao longo do tempo (dois mil anos) e dentro de alguns espaços (quase todos os países do mundo), resultando disto o dogma. Entretanto, embora quase tudo no catolicismo seja puramente dogmático, cuja consolidação apenas aumenta dia a pós dia, não é correto afirmar que nele somente há exoterismo, uma vez que sua prática envolve o Mistério Pascal como sua simbologia elementar.

Diferentemente, buscando a equação que melhor expressa a sociedade contemporânea ocidental, evidentemente, a fórmula "c" condiz em absoluto ao contexto pós-informacional, onde o esoterismo é igual ao paralelismo exacerbado, muito maior do que qualquer convenção simbólica existente e sobrevivente ao corrido tempo num espaço global.

Portanto, esoterismo é individualismo?

Até aqui a resposta é afirmativa: sim, esoterismo é individualismo. Explicar questões esotéricas sempre foi paradoxal, pois como o paralelismo é maior do que a  conversão simbólica, acaba sendo necessário inverter essa lógica caso o interesse seja perdurar certo tipo de conhecimento, mas o resultado termina criando um dogma e, consequentemente, o exoterismo.

Particularmente, esoterismo é a prática mais antiga que existe no mundo, cujos ensinamentos são passados de mestre para pupilo, mesmo assim, através dos estímulos, das precipitações, das latências, pois o conhecimento esotérico emana exclusivamente do ser, como o brotar da flor-de-lótus, que conta com uma série de fatores para que emerja do fundo da lama.

Ora, lege, lege, lege, relege, labora et ivenies. (Mutus Liber)
Contudo, praticar o esoterismo é doloroso e prejudicial à saúde, sobretudo mental. Requer muito estudo, disciplina, esforço e, acima de tudo, alguém realmente experiente para auxiliar durante a jornada de décadas. Mas todo o conhecimento adquirido precisa ter uma serventia, pois, caso contrário, serão como tesouros: valiosos, mas que de nada adianta se estiverem no fundo do mar.

Ainda existe espaço para o esoterismo?

Esta pergunta é bastante pertinente, sobretudo diante da ascensão de uma sociedade consumista, materialista e imediatista, donde tudo parece se resumir no quero, no ter e no agora. Isso não se aplica apenas às coisas materiais, como computadores, carros ou roupas. Aplica-se também ao universo do conhecer, do experimentar e do saber, infelizmente.

Enquirídio

Esoterismo demanda tempo, espaço e alguma outra coisa que geralmente se relaciona muito bem com paciência, prudência e persistência. Contudo, estamos inseridos num contexto de produção em larga escala e objetivos globais, onde quase ninguém tem mais tempo e o espaço se revela cada vez mais pequeno, certamente em decorrência dos limites operacionais de uma rotina diária.

Uma pessoa que trabalha de segunda à sexta, termina ficando limitada a pouquíssimos ambientes, restando poucas horas ao longo do dia ou apenas os finais de semana para fazer algo que não seja próprio da sua rotina. Disto emerge um problema na sociedade contemporânea: escolher como usufruir do tempo livre. Perceba como esta questão é importante.

Como o tempo e o espaço se tornaram escassos para maioria das pessoas, sobraram apenas intervalos de minutos, horas e dias para desenvolver qualquer outra atividade que não necessariamente tenha a ver com ganho financeiro. Portanto, conhecer e experimentar o esoterismo também é colocado como escolha, concorrendo com inúmeras outras possibilidades.

Verdade que muitas pessoas até se interessam pelo esoterismo, porém, quando imaginam que para adquirirem certos conhecimentos é preciso de tempo e espaço (além daquela terceira coisa), colocam suas buscas em quinto ou sexto plano, ficando satisfeitas com alguns podcasts, blogs (como este) ou vídeos no YouTube. Existe algo errado nisso?

Navegando pela internet é possível conhecer várias possibilidades esotéricas, sendo uma prática interessante se realizada comedidamente, sobretudo quando se está buscando informações (advindas de um despertar - próprio da terceira coisa que ainda não disse o nome). Todavia, segundo Paracelso explica, a diferença entre o veneno e o remédio está na dose. Diante deste universo on-line, o curioso perceberá pessoas interessantíssimas, sociedades maravilhosas ou portais completíssimos acerca do esoterismo, mas perdurar nisso, recebendo apenas fragmentos disto ou daquilo, pode ser uma mera distração.

Esoterismo não é entretenimento

Vídeos, áudios e textos, encontrados facilmente na internet, podem ajudar, facilitar ou instruir alguém que esteja iniciando suas averiguações sobre questões esotéricas. Contudo, não raro é possível encontrar canais no YouTube, podcasts e blogs trazendo informações equivocadas ou sem qualquer proveito a respeito do esoterismo - e isto não é bom.

A diferença entre o veneno e o remédio está na dose. (Paracelso)
São conteúdos desse gênero que fazem com que mais e mais pessoas se afastem do esoterismo ou, na pior das hipóteses, utilizem-no de maneira banal. Assim sendo, tendo em vista o tempo escasso e uma realidade que impõe escolhas apertadas, certamente parecerá mais plausível se dedicar em outros assuntos do que procurar por verdades esotéricas.

Em um mundo dinâmico, com uma sociedade imediatista, parece que o importante é ter uma resposta na ponta da língua, mesmo que isto não represente conhecimento, mas isto não significa que a pessoa tenha experimentado ou realmente saiba a respeito de questões esotéricas. Afinal, o esoterismo possui uma finalidade muito além do acúmulo de informações.

Desta maneira, embora mais pessoas queiram conhecer, experimentar e saber questões esotéricas, cada vez menos paciência, prudência e persistência são encontradas entre elas, motivo pelo qual, apenas observando este curto parâmetro, o espaço destinado ao esoterismo, assim como outras coisas, talvez esteja entrando em extinção em seu correto teor.