21.1.26

Mística e Misticismo

Por que entender a diferença que existe entre mística e misticismo é importante no contexto neopagão da atualidade? Para isso, vejamos primeiro os conceitos atrelados aos termos para depois preocupar diferenciar um do outro ou identificar as principais semelhanças que induzem equívocos.
O Conjurador. Hieronymus Bosch.
1. Resumidamente, enquanto a mística, conforme Adolphe Tanquerey (1854-1932), em “Compêndio de Teologia Ascética e Mística” (pela nova tradução da Ecclesiae), volta-se para Deus pela vida ascética, orientada às virtudes, donde os frutos são vistos a partir da maior inclinação à caridade, no misticismo acontecem fenômenos antagônicos.

2. Evelyn Underhill (1875-1941), em “Misticismo” (como está na 2ª edição da Antiga e Mística Ordem Rosacruz — AMORC), posiciona o misticismo a partir de um revés, contra a magia e ciência. Neste ponto, ela tem certo êxito, mas sua definição é anticatólica: “[...] é a arte de estabelecer uma relação consciente com o Absoluto.” (pág. 137).

3. Ora, mas que “Absoluto” seria este, cujo nome, já na própria definição, terminou ocultado? Underhill, anglicana (portanto, protestante), não fez outra coisa além daquilo que diz contrariar, mostrando que misticismo é qualquer coisa, menos mística, ainda que ela venha a tratar de São João da Cruz ou Santa Teresa d’Ávila em suas obras.

4. Como “Estudo sobre a Natureza e o Desenvolvimento da Consciência Espiritual do Ser Humano”, esta obra, qual seja, “Misticismo”, de Underhill, acabou sendo adotada na AMORC como referência sobre o tema — além dela ter um dia para receber as devidas homenagens no anglicanismo (15 de junho), mas pelo quê?

5. Ela não necessariamente é anticristã, mas sua concepção de misticismo corrobora o neopaganismo anticatólico e diverge da mística, ampliando o que é próprio da contemplação para além de toda verdade salvífica em Jesus Cristo, que foi uma maneira de contribuir com uma desvinculação do cristianismo com a Santa Igreja.

6. O que ela é, neste ponto, pouco interessa. Entretanto, aquilo que ela explica acerca do simbolismo é realmente importante à compreensão do misticismo no neopaganismo, pois sua obra, embora tenha algumas razões verossimilhantes, canaliza a mente do leitor à procura isolada por tal “Absoluto” ou através de qualquer outra religião.

7. Assim sendo, enquanto São João da Cruz ou Santa Teresa d’Ávila partem da teologia para questões místicas, Underhill utiliza-os, ou seja, horizontaliza suas experiências e conhecimentos como simbologias que podem ser relacionadas com significados presentes em símbolos estéticos, presentes no suposto diálogo com a psiquê humana.

8. Claro que ela não molda o que é misticismo, como se fosse única a tratar disto. Já há literatura anterior (também posterior). Porém, enquanto trabalho de apreço, seja pelo anglicanismo ou cultura inglesa em geral, ao certo ela não devia ser negligenciada ou subestimada, sobretudo pela abertura simbólica que reforçou ao neopaganismo.

9. Isto, pois, simbólico por simbólico, tanto Al-Ghazali (1058-1111), filósofo muçulmano, quanto Tomás de Aquino (1225-1274), santo e Doutor da Igreja, poderiam, por tal horizontalidade no misticismo de Underhill, alcançar uma suposta verticalidade mais transcendental para este “Absoluto”, que tanto faz se ele é Alá ou Jesus Cristo.

10. Dom Estêvão Bettencourt, O.S.B. (1919-1008), em “Crenças, Religiões, Igrejas & Seitas: Quem São?”, observando com bastante precisão um horizonte tenebroso do rosacrucianismo contemporâneo, salienta: “[...] o cristão que se filie à Rosa-Cruz, acabará, cedo ou tarde, por ter que renunciar à fé cristã [...]” (pág. 144).

11. Underhill é adotada no rosacrucianismo moderno justamente por pavimentar tal via neopagã anticatólica, sobretudo pelos rosa-cruzes atuais admitirem o protestantismo como fonte de todo cristianismo em detrimento da Santa Igreja — informações que obtemos ao atingir os graus da seção “Illuminati”, como se chama na AMORC.

12. Assim sendo, misticismo, para todo caso, hoje não quer dizer outra coisa além desse perenialismo neopagão que subverte o que é místico numa outra coisa que não pode ser nem magia, muito menos ciência, embora na prática seja tanto esta como aquela, mas sem denominá-las — que é uma maneira de viabilizar aquele “Absoluto” anticatólico.
    Para referenciar esta postagem:
ROCHA, Pedro. Mística e Misticismo. Enquirídio. Maceió, 21 jan. 2026. Disponível em https://www.enquiridio.org/2026/01/mistica-e-misticismo.html.

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