25.1.26

Católicos, Protestantes e o Surto de Amnésia

Os debates entre católicos e protestantes tendem a esquecer os pressupostos fundamentais de existirem, excetuando os ortodoxos, dois cristianismos, hierárquico e popular, naturalmente antagônicos entre si pelas imposições politizadas a respeito do “poder cristão”, que é até fácil de saber sua origem.
A Catedral e Palácio dos Papas, Avignon. Thomas Hartley Cromek.
1. Observe que enquanto os protestantes acusam os católicos de se valerem da história do cristianismo para legitimarem a hierarquia, esquecem de mencionar que antes das ideias dos hussitas, luteranos e calvinistas contra a Igreja Católica, Marsílio de Pádua (1275-1342) já politizava as questões da fé no intuito de anular o poder papal.

2. Através do “Defensor da Paz”, escrito por Marsílio em 1324, antes de todas as alegações de simonia (como a venda de indulgências), os argumentos para rompimento da população (e o “poder cristão”) com a hierarquia alicerçaram o protestantismo. Não por uma legitimidade confirmada, mas por politizar a religião em proveito singular.

3. Estando o Papa João XXII sitiado em Avignon, na França, desde eleito em 1316, porém, havendo uma disputa entre Luís IV da Baviera e Frederico I da Áustria, aquele proveito singular foi direcionado justamente à sucessão no Sacro Império Romano-Germânico, que não deveria ocorrer por desígnio pontifício, mas por vontade da população.

4. Bastaria aos nobres e príncipes alemães, pelo “poder cristão”, escolherem o imperador do Sacro Império Romano-Germânico, conforme preconiza o “Defensor da Paz” — sendo assim feito! Luiz IV da Baviera, assistido por Marsílio e Guilherme de Ockham (1287-1349), para piorar a coisa toda, provando sua intenção política, resolve eleger um antipapa.

5. Em 1328, Luiz IV da Baviera, já imperador do Sacro Império Romano-Germânico, nomeia Pietro Rainalducci (1258-1333), em Roma, na Itália, como Papa Nicolau V, mas que foi excomungado em 1329 pelo Papa João XXII, quem também o perdoou ao se arrepender e renunciar do suposto título papal — consolidando o papado em Avignon.

6. Na sucessão em Avignon, depois do Papa João XXII e após o Papa Bento XII, veio o Papa Clemente VI, quem excomungou Luiz IV da Baviera e apoiou a eleição de Carlos IV ao Sacro Império Romano-Germânico, que com sucesso foi coroado. Porém, os efeitos práticos do “Defensor da Paz” não cessaram e culminaram na Bula Dourada de 1356.

7. Esta bula, promulgada por Carlos IV, consolidou os príncipes-eleitores, que no fim das contas fizeram a eleição dos imperadores do Sacro Império Romano-Germânico a partir de 1356 até seu fim, praticamente, minando a influência pontifícia, sediada ainda em Avignon — sempre com estranhos papados curtinhos, de no máximo dez aninhos.

8. Na prática, já existia desde aquele tempo um cristianismo hierárquico e outro popular, donde deste último só restava se abster da figura do soberano qualquer vínculo católico até que pudesse culminar nos estados sem religião (ao invés de laicos, dadas às tendências anticatólicas, confirmadas tempos depois), evidenciando a politização da fé.

9. Apenas depois desses eventos é que o John Wycliffe (1328-1384), pai dos protestantes, conseguiu inserir influências teológicas aos hussitas, luteranos, calvinistas contra a Igreja Católica, que por Tradição tem sólidos relatos da hierarquia desde o século II, sendo a divisão do “poder cristão” uma das consequências do que se viu neste artigo.
    Para referenciar esta postagem:
ROCHA, Pedro. Católicos, Protestantes e o Surto de Amnésia. Enquirídio. Maceió, 25 jan. 2026. Disponível em https://www.enquiridio.org/2026/01/catolicos-protestantes-e-o-surto-de-amnesia.html.

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