28.1.26

Equeva Réplica aos Temperamentos

Antes de tudo, este artigo busca oferecer uma reflexão a respeito das teorias acerca dos temperamentos, largamente utilizadas por pessoas que, talvez, não consigam mais acreditar nas definições advindas da psicologia por ela ser dominada no âmbito da academia por ideologias destrutivas.
Alegoria dos Quatro Elementos: Ar, Fogo, Terra e Água. Jan the Elder Brueghel.
1. As ideologias destrutivas da psicologia moderna se observam com facilidade nas estruturas acadêmicas que intensificam pautas identitárias, sobretudo ao avanço da cultura baseada na disrupção, que por sua vez subvertem o que é valor moral com a clara intenção de destruir uma suposta “heteronormatividade” advinda do cristianismo.

2. Trata-se, portanto, de um método de subversão que procura consumir os espaços e assuntos legítimos em universidades, entidades públicas, escolas, confluindo ao âmbito privado no intuito de erodir as bases dessa cultura, fazendo ela sucumbir ao se descuidar dos verdadeiros problemas, que são relativizados por tais ideologias destrutivas.

3. Basta notar o que é posto na Resolução 01/1999 do Conselho Federal de Psicologia — CFP, onde quem, buscando tratamento psicológico para retornar à condição heterossexual, tem seu psicólogo impedido eticamente disto pelas disposições do parágrafo único do artigo terceiro, seja de um jeito ou de outro.

4. De um jeito ou de outro, pois qual psicólogo se arriscaria, mediante tal resolução, ainda que fosse solicitado por seu paciente, conduzir sessões no intuito de acompanhar um indivíduo que quisesse, abandonando o homossexualismo, casar-se com alguém do sexo oposto? Para fins do que se enuncia neste artigo, sigamos ainda neste assunto.

5. “Parágrafo único — Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades”. Ora, se uma atuação clínica quer dizer tratar, logo atuar no caso, conforme descrito no parágrafo anterior deste artigo, como posto por este blog, implica em descumprir a Resolução 01/1999.

6. Resolução 01/1999 que foi decidida, ainda que sob caráter liminar, por uma Ação Popular (1189-79.2017.4.01.3400), diga-se de passagem mal colocada, no Supremo Tribunal Federal — STF, relatada pela ministra Carmen Lúcia, indicada àquela Corte no primeiro governo petista, quem é a favor do aborto, dentre outras pautas.

7. Também é preciso informar que tal resolução foi definida sob presidência, no Conselho Federal de Psicologia — CFP, da psicóloga Ana Bock, filiada ao Partido dos Trabalhadores — PT, que por sua vez têm tornado as ocupações, infiltradas por sua militância, como é o caso da psicologia, compreensivelmente passíveis de rejeição.

8. Neste ponto, rejeitando-se os psicólogos, talvez não todos, aqueles que mostram oposição à militância partidária nas ocupações, como se vê na psicologia, começam a procurar respostas para questões mentais, comportamentais e espirituais em teorias antigas, muitas vezes excluindo questões biológicas e sociais do indivíduo.

9. Questões que são excluídas pela falsa ideia de que, na biologia, homem e a mulher possam ser relativizados (de que um possa ser o outro), como é a tese defendida pelos subversores, assim como o que é próprio da dimensão social, observada como socialista — e o motivo pelo qual excluírem-na de preocupações sobre os seres humanos.

10. Sobra-lhes, portanto, analisar as pessoas enquanto agentes: a) do pensar, intelectualmente; b) do fazer, moralmente, e; c) do sentir, espiritualmente. Para este último sentido, entendemos como sendo algo mais próximo do sentimento espiritual ao invés do indivíduo inclinado à espiritualidade, conforme será visto.

11. Do ponto de vista da fé, há quem faça dela um palco para lucrar monetariamente, movimentando na mentalidade (“imaginário”) do público almejado uma percepção de terapia mais voltada aos rigores morais que acreditam conhecer melhor que a Igreja, teologizando a prosperidade meramente material, segundo um nocivo psicologismo.

12. Por tal justificativa, falaremos em sentimento espiritual ao invés de inclinação à espiritualidade, dado que aquela coisa em nada parece indicar esta outra. Adiante, através desses modos psicologistas, pois há mais de um, observamos adesões, parciais ou integrais, às teorias antigas, no sentido de possibilitarem prever certos ímpetos.

13. Assim sendo, tateiam as teorias atribuídas a Hipócrates (460-377 a.C.) e Galeno (129-199), embora possam ser notadas também em Empédocles (495-430), referidas especialmente aos elementos (ar, fogo, terra, água), ou muito antes, em pequenos tabletes de argila com quase quatro mil anos, que foram encontrados na mesopotâmia.

14. As preocupações de Hipócrates e Galeno em termos clínicos e farmacêuticos, respectivamente, introduziram-se na história da medicina através de acepções de Empédocles, conforme dispostas em “Da Natureza”, que por sua vez juntou os quatro elementos em um único grupo para tratar da formação do universo.

15. Criara, então, algum tipo de mapa básico para entender relações entre estes elementos, incluindo suas qualidades (quente, seco, frio, úmido)? Ao que se nota pelo posicionamento arqueológico, há indícios de conhecimento relacionado ao “Enuma Anu Enlil” (2000 a.C.), remontando a astrologia babilônica, que não era somente divinatória.

16. Os aspectos divinatórios dessa astrologia, sendo assim considerados, observam-se no que era possível entender por uma relação celeste-corporal, ou seja, da influência celestial na estrutura corporal, motivo pelo qual mediram os babilônicos, ao longo de 6500 e 7000 inscrições cuneiformes, importantes registros, chamados “presságios”.

17. Embora com muitas lacunas, naquelas inscrições cuneiformes, tanto estão as observações meteorológicas, quanto as literais adivinhações, como no caso do halo da lua ser um indicativo para um país próspero, embora sejam todas tratadas como “presságios”, pois a vida mesopotâmica era bastante relacionada à religiosidade.

18. Podemos perceber, noutras inscrições cuneiformes, como os mais recentes tabletes de Al-Yahudu (572-477 a.C.), passagens mais explícitas a respeito de marcações que indicavam cálculos voltados à agricultura, remontando a preocupação em medir o tempo e acontecimentos na relação celeste-corporal, notadamente na astrologia babilônica.

19. Inclusive, “Enuma Anu Enlil” significa “No tempo de Anu e Enlil”, sendo “Anu” ou “An” um deus mais elevado, universal, “deus de deuses”, enquanto “Enlil” um deus intermediário entre o céu e a terra, dado como do “ar” — lembrando que “Ea-Enki” era, para esta tríade dos mitos mesopotâmicos, um deus da “água”.

20. Esses deuses fazem parte de mitos complexos, diga-se de passagem, e a relação celeste-corporal que indicam reforçam aspectos da preocupação daquelas civilizações (Sumérios, Acádios e Babilônicos, primordialmente), motivo pelo qual buscavam entender e dominar a passagem temporal para efeitos de cultivo e criação.

21. As inscrições cuneiformes revelaram cálculos que não usavam o sistema decimal, mas sim uma base doze, mostrando que tais civilizações não contavam apenas pelos dedos, como é feito agora, mas por uma utilização do polegar para tocar todas as falanges opostas: três do mindinho; três do anelar; três do médio, e; três do indicador.

22. Método que não foi desenvolvido aleatoriamente, uma vez que encontramos ele funcionando ainda hoje para marcar o tempo. Desta forma de contar é que o céu terminou sendo observado por tais civilizações, o que é notadamente relacionável com estruturas zodiacais, importantes à astrologia, sobretudo meteorológica.

23. Daí vem uma melhor medida das estações (primavera, verão, outono e inverno), correspondentes aos dedos de uma mão, que por sua vez cada qual tem três falanges, indicando períodos mais ou menos exatos (trimestres) para marcar o tempo, tornando-se em momento posterior nas principais preocupações voltadas à medicina.

24. As questões, saindo da base doze para algo mais quaternário, através da divisão triádica das estações, referem-se naturalmente às preocupações medicinais e farmacológicas por tais medições da passagem do tempo se relacionarem com enfermidades e tratamentos, porém, carecendo ainda de certa investigação.

25. Investigação esta que teve nas figuras de Empédocles, Hipócrates e Galeno maiores contribuições observadas nas relações celeste-corporal, que por sua vez, não por uma cronologia ordenada, passaram por Platão (428-347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.), embora este discorde deste em certo ponto, ainda que fosse seu pupilo.

26. Resumidamente, Empédocles observava naqueles quatro elementos (ar, fogo, terra, água) as substâncias primordiais, ligadas em menor ou maior relação de “amor” (união) ou “ódio” (caos), cujos ciclos (criação e destruição) se viam numa espécie de destino cósmico que envolvia toda existência (mineral, vegetal, animal, humana).

27. Para este filósofo, o que é próprio do ar atrai o que lhe é correspondente, corroborando os fundamentos dos temperamentos. Entretanto, interessa entender que ele pôde ter originado conceitos primários a respeito da sobrevivência do mais apto e a evolução das espécies a partir da água, ideias vistas muito depois no darwinismo.

28. Isto, de certo modo, influenciou as concepções do “Timeu”, de Platão, no tocante ao Demiurgo, responsável pela imposição matemática para ordenar o caos, criando as estações e condicionando as substâncias primordiais como formas ideais ao invés de atributos animados — o que é falar grego, ironicamente. Mas não fiquemos sem entender!

29. Platão tinha essas ideias arquetipicamente, se podemos assim facilitar, enquanto Empédocles entendia tudo isso mais literalmente. Independentemente, em ambas as concepções, observamos o relacionamento desses conceitos com métodos divinatórios mais claramente definidos em sistemas simbólicos derivados — tratados mais adiante.

30. Em “Meteorológicos”, Aristóteles, por sua vez, compreendia que tais substâncias primordiais só poderiam ser válidas a partir de causas, ainda assim naturais, desde que fossem observáveis, afastando, de certa forma, as teses de Empédocles (elementares) e Platão (metafísicas), convertendo compreensões astrológicas para astronômicas.

31. Essa conversão, que não foi objetiva em termos de produção filosófica, contrasta com equívocos atribuídos a Aristóteles, que por sua vez remove também dos estudos qualquer intepretação astrológica que estaria contina da obra de São Tomás de Aquino (1225-1274), especialmente relacionada aos temperamentos — voltaremos neste ponto.

32. Também é possível dizer que por esta conversão as possibilidades divinatórias, porém, indicando previsão, relacionadas às substâncias primordiais, já se conectavam cada vez mais com necessidades realmente meteorológicas ao invés de fatores de horóscopo ou características de um indivíduo definidas pela posição zodiacal.

33. A partir daqui é inviável avançar explicando os pormenores que deverão ser conferidos nas obras que foram e ainda vão ser citadas ao longo deste artigo, embora as sínteses estejam sendo expostas. Assim sendo, sabendo que tais substâncias primordiais são observadas por relações de causa e efeito, seguiremos diretamente para Hipócrates.

34. Hipócrates, em “Sobre a Medicina Antiga”, adverte aos que tratam da medicina “[...] fundamentando sua própria explicação em uma suposição como o quente, ou o frio, ou o úmido, ou o seco [...], reduzindo o mínimo do princípio da causa das enfermidades e da morte das pessoas [...], [que] cometem evidentemente erros trágicos [...]”.

35. Em “Da Natureza do Homem”, pertencente ao Corpus Hippocraticum, notamos que seu autor (pupilo de Hipócrates) tinha preocupações voltadas aos fenômenos causados pelas estações, tratando do ar, fogo, terra e água como espelhos da primavera, verão, outono e inverno, conforme as relações com sangue, bile amarela, bile negra e fleuma.

36. Assim sendo, esse autor afirmava conter sangue, bile amarela, bile negra e fleuma no corpo do homem (seres humanos), pelos quais se mantém saudáve ou adoece, contrariando aqueles que diziam que apenas um ou outro poderia existir no organismo de um indivíduo, que por sua vez estaria sendo reduzido a somente um desses humores.

37. Pois “[...] se derdes a um homem um remédio que remova fleuma, ele vomita fleuma, e se lhe derdes um remédio que remova bile negra, ele vomita bile [negra]”, conforme “Da Natureza do Homem”, argumentando que inexistiria um só humor na pessoa. Então, quanto à predominância, o que é afirmado pelo Corpus Hippocraticum?

38. Devemos admitir que sua lógica impressiona, sobretudo por não desviar ela dos princípios afirmados, como se nota pela causa e efeito perante a combinação quaternária elementos, estações e humores, inclusive pela escassez de recursos às aferições que aconteceram de um modo quase restrito às observações clínicas cotidianas.

39. Ainda em “Da Natureza do Homem”, “[...] se quiserdes dar o mesmo remédio quatro vezes durante o ano, ele vomitará, no inverno, fleumaticamente; na primavera, umidamente; no verão, biliosamente, e; no outono, nigérrimo”. Aferições voltadas para doenças próprias das estações ao invés da predominância de humores em indivíduos.

40. Já em “Sobre as Faculdades Naturais”, de Galeno, que não percorre outra corrente de medicina a não ser a hipocrática, observações mais farmacológicas também não procuram relacionar os humores aos ímpetos dos indivíduos, mas aos fenômenos relacionados às saúdes das pessoas quanto à ingestão de alimentos, tratamentos etc.

41. Inclusive, tanto Hipócrates, em “Sobre a Medicina Antiga”, quanto Galeno, em “Sobre as Faculdades Naturais”, encontraram opositores que não praticavam aquela medicina das causas e efeitos, partindo mais para concepções filosóficas que corroborassem entendimentos primários de Empédocles, como será possível perceber na sequência.

42. Sobre alguns médicos e sofistas, Hipócrates dizia assim: “Porém, o discurso deles se encaminha para a filosofia, como no caso de Empédocles e outros que escreveram sobre a natureza, descrevendo desde o princípio o que é o ser humano, como ele surgiu inicialmente e a partir de que coisas foi formado.” — o que é filosófico.

43. Hipócrates demonstrou, neste ponto, total discordância ao acrescentar seu posicionamento: “Mas eu, de minha parte, considero que tudo o que foi dito ou escrito por um médico ou por um sofista acerca da natureza refere-se menos à arte da medicina do que à pintura.” — que era uma maneira de retratar concepções filosóficas.

44. Finalmente, observamos que Hipócrates, evidentemente através de um recorte preciso para mostrar sua inclinação à prática científica ao invés de mística (que era melhor termos ao invés de filosófica), “[...] considero que não é possível conhecer algo certo sobre a natureza a partir de outra fonte que não a medicina”.

45. Galeno, depois de tratar os equívocos de certos médicos e sofistas, evidenciados pelas justificavas de predominâncias: “[...] claramente isso refuta a visão daqueles que consideram os elementos imutáveis, como [...] o óleo que é inteiramente usado na chama da lâmpada [...] que, em um tempo maior, se transforma em fogo.” (ato e potência).

46. Isto para dizer que todos esses elementos interagem, onde o que é óleo vira fogo, mas que aos sofistas, “[...] todos esses fenômenos são truques e ilusões de nossos sentidos”, donde tratar disso seria, noutros termos, perda de tempo, bastando consultarem Aristóteles ou, antes deste, Hipócrates, acerca dos humores etc.

47. De Galeno até São Tomás de Aquino, leva-se mais de mil anos. Então, Santa Hildegarda de Bingen está mais próxima na história dos humores, sendo um ponto de interesse a respeito de descrições de temperamentos, pois eles constam no “Causae et Curae” (“Sobre as Doenças e Curas”), conforme disposições na sequência.

48. Ao tratar da relação celeste-corporal, observa o zodíaco do ponto de vista meteorológico, descrevendo as estações, assim como afirma existir apenas quatro elementos, que são relacionados, conforme a medicina apresentada pelos mestres antigos, aos humores sem qualquer interpretação inercial, no sentido de imutável.

49. No que ela se refere acerca dos quatro temperamentos, sanguíneo, colérico, melancólico e fleumático, atribui indícios aferidos, talvez, na beira de leito, que bem poderiam ser constatações individuais, mas que terminaram sendo generalizados ao ponto de perder de vista um limiar de plausibilidade, mesmo naquele tempo.

50. Isto não tira nenhum dos méritos desta monja, Santa Hildegarda de Bingen, cujas obras merecem uma apreciação mais aprofundada. Dela para o tempo do Doutor Angélico não demora, motivo pelo qual, agora, poderemos observar aquilo que São Tomás de Aquino colocou a respeito dos humores e sobre Galeno.

51. Quanto aos humores, parece preciso naquilo que explica “Assim, porque a matéria própria do homem é o corpo feito com mistos, complexo e com órgãos, é absolutamente necessário que o homem tenha em si algo dos elementos, humores e órgãos principais.” (Suma Contra os Gentios, livro II, capítulo XXX, parágrafo 8).

55. São Tomás de Aquino no livro II, capítulo LXIII, da Suma Contra os Gentios, introduz sua questão dizendo “A alma não é o temperamento, conforme afirmou Galeno”, supondo ter afirmado “[...] que a alma se reduz ao temperamento” — o que não é encontrado em tratados galênicos sobre medicina.

56. Em “Sobre os Temperamentos e os Temperamentos Desiguais”, Galeno sequer expõe algo que seja sobre a alma. Todavia, antes de culpar o santo, graças às notas ao longo da Suma Contra os Gentios (Editora Ecclesiae), consta que tal citação, segundo a questão, pertence ao “Sobre a Natureza do Homem”, de Nemésio (350-420).

57. Nemésio, conforme o capítulo segundo, “Sobre a Alma”, explica: “Galeno, contudo, na verdade não pronuncia nada, mas é testemunhado no livro da demonstração, e não afirma nada sobre a alma; contudo, o que ele diz, declara, ele prova mais que a alma é temperamento [...]” (pág. 20) — assim consta na edição de 1802.

58. Contudo, Nemésio não refuta as teses de Galeno, que ele demonstra bem entender. Ele faz uma investigação do temperamento como alma, mostrando tal incompatibilidade através das próprias disposições médicas a respeito dos humores, conforme encontradas nos tratados galênicos ou mesmo hipocráticos.

59. “Além disso, se a alma é um temperamento, mas os temperamentos mudam com a idade, o tempo e a dieta, segue-se que a alma muda: se a alma muda, não temos a mesma alma, mas sim o temperamento ora de um leão, ora de uma ovelha, ora de algum outro animal, o que é um absurdo.” (pág. 21) — como está na obra de Nemésio.

60. Além disso, Nemésio conclui que “[...] o temperamento não se opõe aos desejos do corpo, mas também os auxilia. Pois é ela que move e incita; mas a alma se opõe: portanto, a alma não é temperamento.” (pág. 21). Galeno, por tudo que descreveu dos temperamentos, concordaria completamente.

61. São Tomás de Aquino, dirigindo as paixões à alma, trata disto assim: “Ora, uns, de temperamento colérico, facilmente se irritam; os melancólicos, no entanto, facilmente se entristecem. Mas esta opinião pode ser refutada pelos mesmos argumentos, e também por outros, com os quais se refutou a opinião de Alexandre.” (SCG, II, LXIII, 1).

62. Vale dizer que São Tomás de Aquino se referia a Alexandre de Afrodísias (Século II), ainda assim numa citação de Averróis (1126-1198), controverso filósofo muçulmano que vinha ao longo da Suma Contra os Gentios (para não falar do livro “A Unidade do Intelecto Contra os Averroístas”) sendo refutado pelo Doutor Angélico sobre teses da alma.

63. Até aqui, não achamos prudente relacionar Galeno a teoria voltada para explicar os quatro temperamentos, como se pode notar certa base em “Causae et Curae” (“Sobre as Doenças e Curas”), de Santa Hildegarda, por bem abordar os humores, mesmo que diante de restrições severas ao avanço da medicina por causa da época.

64. No tempo do Doutor Angélico, aproximamo-nos dos maiores embates acerca da fé, que por sua vez foi contrastada por inúmeras vezes com temas que eram dados à razão clara, supostamente, como se fosse incompatível com aquilo que ensinava os doutores da Igreja, neste ponto, piorando no auge do Renascimento (1490-1520).

65. O que é possível explicar sem adentrar neste conturbado período histórico? Todas as ideias pagãs foram retomadas, incluindo superstições gravíssimas, incluindo condições que erradamente poderiam ser observadas, incluindo os temperamentos de um modo mais psicológico do que um que se atrelasse aos conceitos medicinais.

66. Foi uma época de grande adesão ao misticismo, que por sua vez incluiria todo tipo de práticas mágicas como estudos astrológicos voltadas às análises zodiacais, sobretudo procurando uma maneira de adivinhar potências pessoais atreladas ao momento do nascimento, o que é marcante em demais abordagens correlatas.

67. Houve uma grande demanda por conceitos metafísicos, notadamente os neoplatônicos, no intuído de equalizarem o pensamento da cristandade com possibilidades mais abrangentes, embora focadas em compatibilizar os dogmas cristãos com uma vastidão de propostas “intelectuais” contrárias ao próprio Jesus Cristo.

68. Assim sendo, teorias astrológicas, cabalísticas, arcanas ou mesmo sufistas (provenientes do esoterismo muçulmano) ganharam a atenção de nobres, reis, demovendo seus pensamentos da verdade salvífica para artes mágicas, de um modo geral, até que conseguissem contaminar a cristandade com superstições.

69. Superstições que ensejaram tratamentos ideologicamente radicais, conforme se vê no Iluminismo (1685-1815), ao final da Renascença, especialmente nos enciclopedistas, procurando reduzir o que é próprio da alma, do homem com sua dimensão espiritual, às materialidades aferíveis com técnicas ainda rudimentares, mesmo na medicina.

70. Não à toa, olvidando de propósito as confusas concepções muçulmanas, ordenadas à satisfação exclusiva dos indivíduos, responsáveis por geraram equívocos desde Maomé (571-632) até atualmente, incluindo ideias nominalistas e fideístas, encontramos uma abordagem mais psicológica dos temperamentos em Immanuel Kant (1724-1804).

71. Kant erra, assim como teria errado Alexandre, porém, citado por Averróis, com sua concepção psicológica dos temperamentos, “[...] que atribuímos meramente à alma, [que] podem também ter secretamente, como causa coadjuvante, aquilo que é corporal no homem [...]”, assim como consta em “Antropologia de um Ponto de Vista Pragmático”.

72. Os homens são constituídos de matéria e forma, que São Tomás de Aquino prova serem corpo e alma, respectivamente, ocorrendo naquele a influência do temperamento, que, por sua vez, porém, acidentalmente, causaria as paixões nesta, donde isto, para Kant, seria atribuído “meramente à alma”, o que não é equívoco, pelo menos aqui.

73. Equívoco é regressar à Empédocles para corroborar ideias de “amor” e “ódio”, respectivamente à “excitabilidade” (intensio) e afrouxamento (remissio), sobre uma tal “foça vital” diante dos quatro elementos (ar, fogo, terra, água), ainda assim silogisticamente (através de silogismo), para inaugurar outros temperamentos.

74. Kant “[...] não deseja [...] saber que composição química do sangue autorizaria a denominação de uma certa qualidade do temperamento, mas que sentimentos e inclinações se coletam ao observar um ser humano que permitem colocá-lo convenientemente sob a rubrica de uma classe particular”.

75. Ou seja, já fala de algo mais aproximado de assuntos psicológicos, voltados a estados mentais, aferíveis não segundo o silogismo pretendido, atualmente, mas que, naquela época, talvez fosse aquilo que dispunha do ponto de vista filosófico para determinar esses novos temperamentos, que não são aqueles de Hipócrates e Galeno.

76. Quando atribuem a Hipócrates e/ou Galeno uma teoria dos temperamentos que descreve “sentimentos e inclinações”, equivocadamente o fazem assim, especialmente se condicionarem “qualidades” e “defeitos” supostamente encontrados em indivíduos “sanguíneos”, “coléricos”, “fleumáticos” e “melancólicos”.

78. Reforçamos, neste ponto, que tal concepção não tem qualquer relação com aqueles humores, motivo pelo qual esses outros temperamentos “kantianos” corroboram aferições simbólicas, determinadas por comportamentos e pensamentos resultantes de “sentimentos e inclinações”, portanto, características mentais.

79. Vale a pena mencionar que Kant via até mesmo uma maneira de reconhecer a índole de alguém sob o que ele mesmo chamou de “rubrica” dentro desse sistema silógico, categorizando os indivíduos por aquilo que possuem como qualidades e defeitos, que é uma maneira de adivinhar propensões à comportamentos e pensamentos.

80. O que não é sequer seguro! Imagine que alguém numa estrada terrosa afirme que ali passou ao menos um cavalo. Fez isso por entender que aquelas pegadas na terra se observam em razão de um animal ter patas que condigam com aquele formato, pelo que ele pode ainda aferir peso, raça, velocidade com que passou por ali.

81. Porém, se choveu, as marcas se tornam borrões, podendo indicar tráfego de equinos, bovinos, caprinos etc. Mesmo na terra ideal, se ali só houver uma pegada, como seria possível determinar a velocidade desse animal? Ou seja, para conseguir aferir certas informações, precisa-se de dados, fatos, concretude ao invés de suposições.

82. Por isso que uma pessoa que faz algo hoje, não necessariamente repetirá amanhã. Contudo, se sempre se inclina àquela ação, quer dizer algo nela gera essa motivação. Então, nestes termos, poderia ela ser classificada conforme os temperamentos que são apresentados pelo Kant? Jamais! Por razões que são muito simples de entender.

83. Observando o que é a lei em um estado, comete crime quem rouba. Se um criminoso cumpre pena, logo deixa de assim ser considerado? Burocraticamente sim, mas não socialmente, revelando questões que escapam à justiça como poder estatal. Então, por quais motivos isto acontece? Trataremos desse assunto brevemente.

84. Poderia ser resultado de um preconceito generalizado em todo país? Ainda que possa ser uma das repostas, por sua natureza requer entender por que tal fenômeno existe nesta civilização. Em um estado legítimo, talvez esse fator requeira uma análise mais antropológica, porém, diante da corrupção estatal, o que é possível concluir?

85. Históricos corroboram que as leis não são confiáveis, e que a penalidade não necessariamente foi legalmente determinada ou cumprida, gerando nas pessoas um sentimento de insegurança, movendo-as para condicionamentos de autopreservação, incluindo a desconfiança de pessoas que um dia cometeram algum crime.

86. Mas daí afirmar que qualquer pessoa, cuja rubrica seja isto ou aquilo, sempre se incline à criminalidade, significa determinar seu destino, o que é realizado por métodos divinatórios, donde o erro fatal é aferir estes “sentimentos e inclinações” — piorando se em um “terreno de borrões”, analogamente às pegadas dos cavalos (ou bois ou ovelhas).

89. Para Kant, o que é uma pessoa cuja rubrica é “colérica”? Dele, diz que “[...] se inflama rapidamente [...], deixa se apaziguar logo pela condescendência dos outros, se zanga a seguir, sem odiar, e ama tanto mais aquele que condescende logo com ele.” — diz isto por não ter vindo ao mundo no ápice das mídias sociais, onde muitos são assim.

90. Um “melancólico”, para Kant, “[...] dificilmente promete, porque para ele manter a palavra é caro, mas o poder para tanto, duvidoso. [...] porque a adversidade o importuna e, por isso mesmo, o torna preocupado, desconfiado, hesitante, mas com isso também insensível à alegria.” — perdendo-se, assim, no looping de reels em busca de dopamina.

91. Já um “sanguíneo”, coitado, para Kant, “[...] é descuidado e esperançoso; por um momento, dá grande importância a cada coisa, no momento seguinte, é capaz de não continuar pensando nela.” — mas o que é uma mídia social se não um laboratórios de “kantianos” nestes termos? Prossigamos, ainda que pouco ou nada daqui resulte.

92. Por fim, mas não menos importante, observamos o que é ser “fleumático” para Kant: “Fleuma, como fraqueza, é propensão à inatividade, e não se deixar mover para os negócios nem pelos motivos mais fortes.” — que por uma condição ambiental (mídia social), essa inércia pode não ser uma propensão, mas condicionamento.

93. As descrições de Kant para cada temperamento, conforme sua idealização psicológica, silógica, simbólica, não são tão diminutas assim, bastando conferi-las consultando seu trabalho, chamado “Antologia de um Ponto de Vista Pragmático”, o que é encontrado em tratados não recebidos por acadêmicos pós-iluministas, como será visto.

94. Heinrich Cornelius Agrippa von Nettesheim (1486-1535), situado naquele período do Renascimento, descreveu o que Kant pôs a partir do simbólico em algo em torno de: “[...] na ordem da Lua, ele conduz à servidão [...]; na ordem de Júpiter, [...] à veneração; na ordem de Marte, [...] à discórdia [...]” — que são correspondências astrológicas.

95. Se “[...] na ordem de Vênus, ao amor e à alegria”, sendo ainda contrário a Saturno, logo este pode corresponder ao “ódio” e à “tristeza”, segundo dispõe Agrippa no capítulo cinquenta e oito do livro primeiro de “Três Tratados de Filosofia Oculta”, o que é correspondente, por sua vez, aos temperamentos que Kant bem reproduziu.

96. Desta forma: um “colérico” tende à “discórdia”; um “melancólico” tende à “tristeza”; um “sanguíneo” tende à “veneração”, que pode ser atribuída à “esperança”, mas não necessariamente compromissada, e; um “fleumático” tende à “servidão”, indicando uma inclinação ao “serviço”, porém, podendo requerer incentivos que lhe mova do ócio.

97. Isto tudo, como se vê nesta obra de Agrippa, relaciona-se diretamente com uma astrologia, que, deste modo, tem por finalidade um resultado divinatório, antecipatório para “sentimentos e inclinações”, voltando para Kant, cuja “razão” sobre temperamentos é semelhantemente determinada astrologicamente.

98. Em “Astrologia Medieval”, do beato Raimundo Lúlio (1232-1316), “[...] os astrólogos dizem que Marte é maligno e que, portanto, os homens que nascem na constelação de Marte são maus e beligerantes, pois despertam querelas por conta de suas cóleras.” — o que o torna, como dizem, irascível, que se ira facilmente, como Kant explicou.

99. As correlações são tão precisas na perspectiva da astrologia, que uma aferição por oposição, como feita no parágrafo 95 deste artigo, encontra sua validação em Lúlio ao afirmar que “Saturno é maligno” e que a pessoa que nasce sob tal constelação é “melancólica” por causa das propriedades dos elementos relacionados.

100. “[...] diz-se que os nascidos sob Júpiter [sanguíneos] aprendem e entendem mais facilmente do que os nascidos sob Saturno, mas também esquecem mais rapidamente do que os melancólicos.” — já em Kant: “[...] por um momento, dá grande importância a cada coisa, no momento seguinte, é capaz de não continuar pensando nela”.

101. Já os “fleumáticos”, como Lúlio não vê na Lua as influências necessárias, atribui à Vênus (embora esta seja semelhante àquela de um certo modo), que por sua vez “mantém os homens na ociosidade”, como Kant explicou que alguém desta forma “[...] não se deixar mover para os negócios nem pelos motivos mais fortes”.

102. Como se vê através desses trechos, evidentemente recortados no intuito de demonstrar as correspondências mais significativas à compreensão deste artigo, percebemos, pelas obras mencionadas, que nem Lúlio, nem Kant, diferentemente de Agrippa, temporalmente localizado entre esses dois, contemplam Hipócrates ou Galeno.

103. Não se diz, por exemplo, que aquelas descrições não coincidam com realidades, experiências verdadeiras e correspondentes àquilo que foi aferido em certos “sentimentos e inclinações”, mas que são, como dito, coincidentes! Não são resultados da causalidade e permanecem no campo da subjetividade.

104. Adiante, enquanto definições simbólicas, encontram correlações em descrições em sistemas que podem ser divinatórios, como é o caso do I-Ching, Chacras, Alquimia, Cabala, Tarô, Eneagrama e a Astrologia (contemporânea), atreladas à numerologia como método para intermediação entre significados e aplicações terapêuticas, por exemplo.

105. Observe o que é colocado em “A Sabedoria do Eneagrama”, de Don Richard Riso (1946-2012) e Russ Hudson, segundo o eneatipo oito (um tipo de personalidade): “[...] essas pessoas costumam sentir-se como se estivessem em guerra contra o mundo.” (pág. 307). Um “colérico” se encaixaria nessa descrição, mas não apenas por tal recorte.

106. Neste ponto, o foco é demonstrar que sistemas distintos conseguem estabelecer descrições que mantêm entre si algum nível de correlação, apesar das origens não serem nem hipocráticas, nem galênicas, no sentido da medicina da antiguidade, mas tão somente simbólicas, como foi vista modernamente pelo Kant.

107. Segundo “A Sabedoria do Eneagrama”: “O atual Eneagrama [...] foi obtido a partir de muitas tradições espirituais e religiosas distintas. Boa parte dele é resultante da [...] filosofia perene acumulada em milhares de anos por cristãos, budistas, muçulmanos (especialmente os sufistas) e judeus (na Cabala).” (pág. 19).

108. Creditam a Pitágoras (570-490) a concepção geométrica do Eneagrama ou “Nove Tipos”, do grego, porém, como um sistema utilizado no ocidente, excluindo-se pormenores históricos que envolvem o sufista Ikbal Ali Shah (1894-1969), supostamente foi George Ivanovich Gurdjieff (1866-1977) que fez tal disseminação.

109. Inclusive, as compreensíveis desconfianças à psicologia, sobretudo como segue organizada no Brasil, também são atribuídas às medidas que conselhos dessa profissão terminam adotando com interesses obscuros na instrumentalização de sistemas, mas sem que possuam respaldos científicos conclusivos, como é o caso do Eneagrama.

110. Em 2011, algo sobre isso aconteceu no Conselho Regional de Psicologia de Goiás — CRP09, quando se apropriou do Eneagrama como teste psicológico, portanto, “privativos dos psicólogos”, baseada na Resolução 02/2003 do Conselho Federal de Psicologia — CFP sobre a utilização, elaboração e comercialização de testes psicológicos.

111. Numa Ação Direta de Inconstitucionalidade — ADI (3481), decidiu o Supremo Tribunal Federal — STF no sentido de declarar inconstitucional aquela resolução, pois, noutros termos, os psicólogos, levando em consideração somente o Eneagrama, parecem mais inclinados às imprecisões do misticismo do que ao rigor da ciência.

112. Imprecisões à parte, seria ideal compreender que a tal “filosofia perene”, segundo Riso e Rudson, decorre de manobras intelectuais no Renascimento, especialmente alinhadas ao neoplatonismo, embora sua definição mais condizente se dê através de Aldous Huxley (1894-1963), conforme seu trabalho “A Filosofia Perene”.

113. Apesar de Agostino Steuco (1497-1548) ser atrelado à utilização primária da expressão “filosofia perene”, esta não teve, através dos tempos, consolidação, recebendo outras significações, que não necessariamente representam sua intenção original, motivo pelo qual, depois de tudo isso, incluindo os problemas do Renascimento, fomos a Huxley.

114. Huxley, portanto, afirma que tal expressão “[...] foi cunhada por Leibinz; mas, a coisa [...], essa coisa [metafísica] é imemorial e universal.” (pág. 00) — o que é impreciso! Mas ele continua: “A Filosofia Perene se preocupa [...] com a Realidade única, divina, substancial do mundo múltiplo das coisas, vidas e mentes.” (pág. 00).

115. “Nada em nossa experiência cotidiana nos dá nenhum indício para supor que a água seja feita de hidrogênio e oxigênio; no entanto, quando sujeitamos à água a certos tratamentos drásticos, a natureza de seus elementos constituintes se torna manifesta.” (pág. 00) — sendo esta parte que torna Huxley distinto dos demais, como ainda será visto.

116. “É apenas ao realizarmos experimentos físicos que podemos descobrir a natureza íntima da matéria e suas potencialidades. E é apenas ao realizarmos experimentos psicológicos e morais que podemos descobrir a natureza íntima da mente e suas potencialidades.” (pág. 00). Ou seja, um empirismo, porém, bom ou ruim?

117. Ainda assim, Huxley condiciona as experiências aos conhecimentos de expoentes da “filosofia perene”, como os “profetas”, “santos”, “sábios”, “iluminados”, costurando no próprio trabalho as verdades que são correlatas, porém, conforme seu julgamento, que por ora encontra alguma certeza, mas não uma imutabilidade astrológica.

118. É que a suposta imutabilidade astrológica é equiparável à relacionada aos temperamentos, sobretudo pela simbologia que encontra diversos correlatos em diferentes sistemas, todos eles como sendo direcionados ao autoconhecimento, segundo afirmam autores medievais, modernos e contemporâneos.

119. Autoconhecimento é basicamente a maneira de se examinar e constatar aquilo que poderá ser obtido por conhecimento literário, experiências pessoas ou mesmo as observações que possam ser feitas sem necessariamente participar dos fenômenos decorrentes, ou seja, de forma menos empírica, mais teórica.

120. Também aqui podemos perceber que determinados conhecimentos bem descrevem certos pensamentos e comportamentos dos indivíduos, causando não uma doutrinação exteriorizada, mas uma reflexão interior, que por sua vez poderá revelar os motivos de algumas reações diante de certas circunstâncias, dependentes de múltiplos fatores.

121. Mas não surgirão dessas reflexões interiores, portanto, pessoais, constatações baseadas em descrições com capacidades abrangentes, como quem, achando-se irritadiço, logo deva ser visto como “colérico”, pertencente ao tipo de temperamento que descreve as características de pessoas que têm, noutros termos, “pavio curto”.

122. Um “melancólico” pode ser tão “pavio curto” quanto um colérico, dado que estão nos extemos desse sistema, embora se expressem de maneiras diferentes, deslocando a questão da reação do “quê” para “como”. Não é que reajam, pois isso será sempre feito, de um jeito ou de outro; mas como fazem isso.

123. Ou um “colérico” nunca pensa antes de fazer alguma coisa? Ou um “fleumático” jamais teria aquela reatividade impulsiva, supostamente própria de pessoas irritadiças, por ser caracterizado em um sistema descritivo, como quem sempre tende à razão ao invés da impulsão? Para isso, devemos entender o temperamento predominante, certo?

124. Todavia, em que se basearia essa predominância de temperamento? Já se percebeu que não foi Hipócrates ou Galeno, respectivos da medicina, ou Empédocles ou Sócrates, tratando-se de filosofia, que tais descrições, sobretudo em termos psicológicos e comportamentais, conseguiram ser estabelecidas.

125. Mesmo que tivessem os pensamentos hipocráticos e galênicos ensejado definições a respeito dos temperamentos em termos psicológicos e comportamentais, através da própria medicina que deram bases, hoje estas teses estão refutadas, restando aos humores servirem enquanto heurística, portando valores simbólicos.

126. Ainda assim, formandos de medicina em faculdades tradicionais, ao final do curso, continuam prestando o Juramento de Hipócrates como modelo ético para exercerem a medicina, que por sua vez, através do médico Rudolf Virchow (1821-1902), distanciava-se finalmente de explicações acerca de doenças partindo dos humores.

127. Depois de Virchow ter explicado questões patológicas partindo de alterações celulares e teciduais, sobretudo pelo advento do microscópio, os humores deixaram de permear as preocupações médicas no sentido de que as causas e efeitos agora podem ser aferidas segundo técnicas mais apuradas e precisas.

128. Enquanto heurística, os humores poderão até ser usados como alguma forma de facilitar insights, assim como podem ser também qualquer outro sistema de atributos que vinculem algumas característica a determinado tipo de resultado esperado — o que é funcional a depender da utilidade específica, como um jogo de símbolos.

129. O que é próprio do fogo, pode estar representado em um símbolo, como o naipe de paus de um Tarô, ou em um conjunto deste, como os signos de Áries, Leão e Sagitário. Igualmente se vê na “Sephirah” de “Geburah”, conforme a Árvore da Vida cabalística. Contudo, dada disto pode prevê os pensamentos e comportamentos das pessoas.

130. Como jogo simbólico, representa. Representando, poderão ser dispostos indagações, situações, algo que seja próprio à reflexão, ancorando isso ou aquilo em alguma representatividade, como quem coloca fichas sobre um mapa para indicar locais que passou, no intuído de entender seu trajeto de um modo geral.

131. Trajeto que pode ser uma relação com alguém, situação pessoal, problemas ou desafios na vida, onde os elementos, como ar, fogo, terra, água, indicam um modo de reagir diante dessas situações ou emoções sentidas em contextos específicos, mas que não descrevem o indivíduo como uma coisa constante e imutável.

132. Mutáveis, portanto, consiste o que é próprio de um estágio da vida ou, sobretudo, momentos específicos desta, donde colérica é a característica de algo mediante alguma coisa, sendo o sujeito alguém que, não por sinal, mas por diversos fatores, tende, para este caso, reagir de certa forma condizente com descrições abrangentes.

133. Noutros termos, há quem se indisponha só de olhara para alguma coisa, reagindo com ímpeto extremo, não por ser colérico, mas por realmente nutrir certa aversão à questão ao qual se vê exposto, ainda assim em um dado momento ou circunstância. Porém, sendo um comportamento constante, do que se estaria a abordar?

134. Do ponto de vista da fé, defendemos o verdadeiro livre-arbítrio, inclinado à capacidade de acreditar em Deus ou de rejeitar sua divindade, porém, sendo difícil não reconhecer os numerosos milagres que médicos no mundo inteiro, através da ciência que estudam e praticam, conscientemente testemunharam e continuam a testemunhar.

135. Não é que médicos não devam fazer ciência! Ora, tal controvérsia só persiste em âmbitos cientificistas, academicistas, ou seja, ligados às ideais que não conseguem se sustentar. Deus tanto opera milagres sem intermediários, como quer boas pessoas intermediando as curas, os livramentos, as transformações etc.

136. Para Deus, todos são tidos por filhos amados e queridos, mas que são donos do livre-arbítrio que Ele mesmo concede, para que tudo se veja feito por atos de amor ao invés de imposições por aprisionamentos, como são essas ideias divinatórias que infelizmente preenchem as sociedades de verdadeiros feiticeiros modernos.

137. Feiticeiros modernos, uma vez que, independentemente de serem esses os atuais psicólogos neopagãos ou terapeutas católicos (os oportunistas), ora deturpam a ciência que acreditam defender por cientificidade, ora subvertem o que é próprio da fé através de práticas que são fundadas em um misticismo travestido de simbologia abrangente.

138. Simbologia abrangentes é diferente de critérios de diagnóstico, por exemplo, que observam características existentes nos indivíduos, porém, dependendo de investigações, que quando bem realizadas, sempre demonstram ter suportes paralelos, advindos de especialidades distintas da medicina, psicologia, terapia ocupacional etc.

139. Os símbolos, sem que sejam esses abrangentes, certamente podem cumprir aquela heurística já mencionada, facilitando insights em processos terapêuticos que respeitem os critérios científicos, deixando de lado toda subjetividade que possa ser classificada como misticismo, superstição ou meramente charlatanismo.

140. Portanto, definir que uma pessoa é colérica para antever suas inclinações comportamentais, ainda assim ao se basear em descrições restritas, infundadas e/ou formuladas sob uma perspectiva do misticismo, que por sua vez contempla complexos revezes históricos, constitui no mínimo uma violação do livre-arbítrio.

141. Por pior que sejam alguns médicos e psicólogos de hoje, embora possam melhorar, ainda assim é graças ao rigor da ciência que pessoas deixaram de morrer por doenças que não tinham tratamento na antiguidade e durante a Idade Média. Porém, em um país de quase nenhum apreço às pesquisas, cientistas viram negociantes (vice e versa).

142. Ou seja, as universidades vão filtrando seus candidatos às bolsas de mestrados e doutorados com base nas adesões ideológicas (negociata). Se alinhados, ótimo; mas, caso não, azar — sendo outro ponto crítico e o motivo pelo qual podemos afirmar que tal problema corrobora o ressurgimento de teorias antigas em contextos de terapias.

143. Abordar um assunto que atravessa milênios de história não é uma tarefa tão interessante para um blog, especialmente pela superficialidade do tratamento e a ausência de maiores referências para isto. Porém, prestando-se ao cumprimento de um grande alerta, algumas coisas precisavam ser colocadas para fomentar este diálogo.

144. As pessoas estão ficando acuadas perante as ideologias e cada vez mais recorrem à abordagens alternativas, ainda que achem que são condizentes com suas profissões de fé. No âmbito católico, podemos assegurar que não passam de engodo as abordagens que procuram delimitar os indivíduos naqueles quatro temperamentos.

145. Também é traiçoeira a intenção de antever, através desses quatro temperamentos, inclinações que dependem de tantos outros fatores para chegar em definições ainda assim mutáveis, mas que são encaradas como estáticas e inerentes de cada um, provando-se, mais do que um sistema divinatório, um engodo, como já dito.

146. Vale a pena informar que aqueles que investigam os quatro temperamentos em busca de alguma verdade que possa ali ser revelada não necessariamente estão realizando um trabalho duvidoso, exceto se olvidarem critérios científicos (não cientificistas) para darem voltas em torno de subjetividades de um misticismo.

147. Que por bem, aqueles que verdadeiramente se interessam pelas condições mentais, emocionais e espirituais das pessoas possam estudar em faculdades, universidades, enfrentando os ideólogos para devolver à ciência o que lhe é própria: conhecimento da verdade. Tudo para além disso tende à mentira e à cientificidade.

148. Colocações contrárias às contribuições deste Enquirídio são bem-vindas, mas que sejam ao menos estruturadas em informações minimamente aferíveis, passíveis de verificação, sempre lembrando que o que foi realizado aqui procurou evitar questões mais pessoais, restringindo-se ao máximo às revisões dos textos que foram mencionados.

149. Por fim, como editor deste blog, agradeço a paciência e o interesse pela leitura deste artigo, que não tem outro intento além de fazer esse alerta sobre algo potencialmente prejudicial se observado de maneira equívoca, para além da proposta heurística, simbólica, dependente de contexto, como é a teoria dos quatro temperamentos.
    Para referenciar esta postagem:
ROCHA, Pedro. Equeva Réplica aos Temperamentos. Enquirídio. Maceió, 28 jan. 2026. Disponível em https://www.enquiridio.org/2026/01/equeva-replica-aos-temperamentos.html.

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