Considerações Sobre Tarô - Parte I

Tendo sobrevivido ao tempo, cerca de 500 anos desde seu surgimento na Europa, sobretudo perante as diversas adaptações culturais, ainda assim o Tarô sofre repulsa, sendo, antes de estudado, repudiado por seu caráter oracular. Nesta postagem serão apresentadas algumas breves e introdutórias considerações sobre este sistema de cartas, incluindo suas principais indicações, expondo algumas advertências acerca do controvertido método adivinhatório utilizado por alguns tarotistas, embora não signifique necessariamente em invalidação.

A Epítome Ontológica Universal
Apesar de existirem outros baralhos com mais ou menos volume, apenas se considera Tarô o conjunto de 78 cartas, contendo 56 arcanos menores e 22 arcanos maiores, embora não represente esta divisão condição hierárquica. Arcano significa enigma associado a questão de difícil compreensão.

Contidos nos 56 arcanos menores estão as 16 cartas da corte, compostas por cavaleiros, valetes, reis e rainhas, mudando estas nomenclaturas a depender da corrente estudada ou temática do sistema, sendo divididas em quatro grupos que correspondem aos aspectos vinculados aos naipes que integram o baralho de Tarô.

Ainda sobre os arcanos menores, existem 40 cartas que representam determinados contextos, correlacionados aos naipes de paus, ouros, espadas e copas, cujos aspectos vinculados trazem potenciais evidências acerca das condições dos enigmas. Desta forma, podem se relacionar com situações metafísicas, materiais, intelectuais e emocionais, enunciadas tão somente a partir da questão de difícil compreensão.

Conforme observado, somente questão de difícil compreensão merece apreciação perante este sistema. Assim sendo, inexiste uma maneira prática para mensurar esta dificuldade, porém, algumas perguntas são sumariamente descartadas. Dentre várias, aquelas que restringem a reflexão ao "sim" ou "não", incluindo generalidades que independem da razão humana que infelizmente só condizem ao estado limitado de racionalização do indivíduo que estritamente percebe o Tarô como objeto meramente recreativo, próprio para passar o tempo.

Vale ressaltar que o Tarô também é considerado um sistema de classificação de personalidade de origem mística em termos de autoconhecimento, lembrando rapidamente que certos psicólogos modernos buscam se apropriar indevidamente de ferramentas esotéricas como Eneagrama (link), motivo pelo qual qualquer questão suscitada às cartas, visando obtenção de respostas (pergunta no singular, respostas geralmente no plural), precisa ser difícil o suficiente ao ponto de permitir uma reflexão mais aprofundada, uma vez que acessar a mente sem sua intervenção (geralmente manifestada por pensamentos conflitantes, exitosos, subversivos etc.) demanda elevado nível de concentração, caracterizada pela genuína força de vontade. Assim sendo, enquanto o tarotista se responsabiliza por descrever os conceitos revelados pelos arcanos, identificamos aquele que solicita uma consulta por consulente, pessoa suficientemente capaz de raciocinar e tomar decisões sobre si mesma. Condição justificada pela própria natureza personalíssima da tiragem perante o baralho, impossibilitando ser perguntado aquilo que dependa de outro ou situação irresistível.

Mesmo que alguém queira realizar uma consulta na companhia de alguma outra pessoa, talvez relacionada ao objeto da questão de difícil compreensão, jamais permitirá o tarotista a sequência deste procedimento pelo simples fato do Tarô não conseguir revelar seus mistérios de maneira equalizada para dois consulentes. Significa dizer que uma imagem pode trazer interpretações diferentes? Sim, uma vez que qualquer tiragem sempre depende do contexto, situações metafísicas, materiais, intelectuais e emocionais. Perceba adiante o motivo desta nuance através de exemplo prático.

Diante de algumas pessoas, imagine um objeto esférico e solicite aos presentes que façam o mesmo. Supondo que tenha imaginado uma bola de bilhar, certamente os demais irão apresentar visões diferenciadas, quando terão trazido respostas como "bola de gude", "bola de futebol", "bola de golfe" dentre outros. Mesmo que tenha solicitado para pensarem numa "ambulância com sirenes acionadas", todos continuarão apresentando versões diferentes desta viatura, talvez relacionada ao modelo ou mesmo quanto ao tipo de som emitido.

Ideias convencionadas são divergentes enquanto expressões em forma de pensamentos, sendo fenômenos que decorrem de relações anteriores junto aos objetos em determinados contextos. Enquanto uma pessoa estava pensando numa ambulância branca passando sobre um viaduto num dia chuvoso, outra visualizou viatura semelhante, porém, dentro do túnel onde certa vez fora socorrida após sofrer um acidente. Desta forma, embora o veículo tenha características semelhantes, funções quase idênticas, certamente as experiências mencionadas possuem valores distintos.

Imagine agora que lhe seja dito alguma coisa sobre um objeto desconhecido. Aliás, pense num Hiportifácio e tente descrever suas características. Consulte o Google - mesmo ele não encontrará resposta alguma. Acontece que tal palavra simplesmente não foi convencionada o suficiente para emitir qualquer significado. Diferentemente, imagine uma árvore e busque expressar aquilo que visualiza acerca dela. Evidentemente, acontecerá o mesmo fenômeno explicado anteriormente sobre a ambulância, porém, mesmo não sendo idêntica a referência visual em mente, será infinitamente mais fácil e tangível remontar uma sequoia, carvalho ou pinheiro. Contudo, mesmo que existam convenções sobre estes nomes, talvez ainda não seja viável remontá-las justamente por jamais terem sido visualizadas, sendo mais próximo um ipê, copaíba ou jacarandá. Desta forma, regionalização é crucial ao entendimento das coisas em termos de recordação e atribuição valorativa. Independentemente, qualquer pessoa poderia exemplificar uma maçaranduba dizendo que possui raízes, tronco, galhos e folhas, incluindo funções como abrigo da chuva, sombra para descansar ou montar um balanço etc.

Exatamente sobre estas convenções estão fundamentadas as ilustrações presentes no Tarô, possibilitando o acesso universal das potenciais informações ali contidas, evidenciando contextos que são facilmente compreendidos e associados às memórias mais recentes ou remotas do consciente ou inconsciente humano, principalmente pelo contato aleatório entre a visão e a carta, quando de supetão são reveladas informações contextualizadas pela mente do consulente. Exemplificando, imagine que numa consulta lhe foi revelado um arcano contendo uma figura feminina quebrando um espelho (objeto cuja função está amplamente convencionada). Inúmeras associações poderão ser realizadas, desde uma pessoa descontrolada, emocionalmente abalada, talvez com raiva de si mesma por tentar quebrar seu reflexo etc. Inexiste uma verdade única sobre esta revelação, porém, também não seria possível dizer que não faz correlação ao imaginário alheio, quando alguém poderia vincular tal situação com emoções de descontentamento pessoal por ter falhado no trabalho ao negligenciar suas atribuições, evocando sentimentos de autodestruição, fúria, descontrole etc.

Revelar um arcano não significa responder uma questão, mas tão somente dar início aos processos de indagações que permitirão os aprofundamentos necessários à satisfação da consulta, trazendo ao consulente reflexões sobre diversos contextos e algumas potencialidades atreladas a própria personalidade ou fatores alheios, capazes de inspirar positivamente ou influenciar negativamente as tomadas de ações. Desta maneira, recai ao tarotista a responsabilidade de jamais interferir nas revelações das cartas, transmitindo apenas o conceito, tendo em vista o tipo de questionamento realizado.

Talvez o maior mistério da consulta ao Tarô não esteja baseado apenas na aleatoriedade da tiragem, quando uma ou outra carta é revelada. Certamente a grande inteligência deste sistema se revela na transmissão dos conceitos atrelados às situações metafísicas, materiais, intelectuais e emocionais já mencionadas, sendo representadas pelos naipes de paus, ouros, espadas e copas. Elementos presentes nos arcanos que são responsáveis apenas por conduzirem reflexões, permitindo auto-análises conscientes, embora possam causar inconscientemente acessos às informações não despercebidas.

Pense na seguinte situação. Certo consulente questionava seu comportamento perante os colegas de trabalho querendo obter orientações para melhor proceder naquele ambiente, sendo revelada na tiragem uma carta contendo uma ilustração, retratando uma espécie de ajudante de cavaleiro medieval, carregando apressadamente cinco espadas nos braços numa direção, olhando fixamente outras duas, embora enfincadas na terra num sentido oposto: enquanto seus pés se voltavam ao norte, seus olhos se dirigiam ao sul. Quais seriam as possíveis reflexões obtidas ao entrar em contato com tal arcano? Melhorando a pergunta: sabendo que naipes são representações e lembrando que espadas são vinculadas aos aspectos mentais, existem pensamentos que mereçam ocupar a atenção além daqueles já carregados? Questão diferente poderia surgir: posso deixar aquelas ideias para trás? Certamente o poder reflexivo contido no Sete de Espadas (link) é ilimitado. Contudo, precisa o tarotista, além de apresentar o mistério, conduzir a mente com perguntas contextualizadas, porém, apenas com descrições, metáforas ou analogias que não causem induções ou interpretações automáticas ou sintéticas.

Algumas pessoas, tarotistas às vezes, acham que estes arcanos (tomando o Sete de Espadas como exemplo) emitem respostas assim: "você precisa olhar outras questões no trabalho para continuar com aquelas que possui" ou "siga em frente, independentemente das opiniões dos outros". Além de sintéticas e automáticas, apenas induzem reflexões restritas a pergunta inicial do consulente, uma vez que, observando e percebendo o conteúdo da carta (sabendo da vinculação aos aspectos mentais), talvez pudesse correlacionar outras possibilidades para além do contexto originário.

Lembrando que tarotista é aquele que põe cartas e tarólogo aquele que estuda (geralmente fazem ambas as coisas), seria irresponsabilidade, numa consulta ao Tarô, indicar o futuro para alguém. Adivinhar e permitir ao consulente identificar os prós e contras nas revelações são diferentes. Enquanto nestas a pessoa pode perceber eventos eminentes por reflexões (in)conscientes, naquela outra prática há apenas uma especulação que tenta levianamente agradar as demandas mais superficiais da questão (supondo que realmente haja alguma).

Tarô é algo sério, sendo a profissão de tarólogo descrita na Classificação Brasileira de Ocupações - CBO (link) do Ministério do Trabalho. Inexiste uma escola única, muito menos um centro oficial de ensino. Aprender e dominar esta arte demanda empenho e muito estudo, inclusive de matérias científicas como semiótica, além dos possíveis auxílios que possam surgir no aprofundamento de fontes como mitologia (donde a psicologia dali também bebe), alquimia, cabala dentre outros, embora as cartas possam ser estudadas independentemente.

Importa, nesta postagem, entender a relevância de ferramentas como o Tarô, esquecida e ignorada pela infelicidade da compreensão alheia, muitas vezes, conforme já indicado, através dos próprios tarotistas, quando diminuem seu valor reflexivo, auto-crítico, utilizando este sistema de cartas de maneira negligente ou de forma despreparada. Certamente esta não foi e nem será uma publicação independente deste Enquirídio sobre a temática, servindo apenas como ponto de partida para aqueles que ainda não conhecem ou pouco sabem sobre o baralho.

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