Eneagrama como Instrumento Psicológico?

Decorrente da saturação do mercado de trabalho e somada ao imediatismo na obtenção de resultados, determinados psicólogos encontraram uma maneira de reinventarem seus ofícios. Enquanto alguns tentam tangenciar os aspectos mentais através da matemática, reduzindo sentimentos e experiências em equações meramente numéricas, outros simplesmente tetam adaptar alguns conhecimentos antigos aos padrões aparentemente científicos para vendê-los como novidade, embora apenas estejam se apropriando indevidamente daquilo que certa vez condenaram.

A Epítome Ontológica Universal
Esoterismo, misticismo, magia, ocultismo, bruxaria, alquimia etc. Nomenclaturas repudiáveis por certos dogmas religiosos e diante da ciência moderna, detentora quase inquestionavelmente dos verdadeiros conhecimentos acerca das propriedades universais da natureza, embora tudo deseje sinteticamente restringir.

Evidentemente, aqueles que assim pensam esqueceram por completo que personalidades como Isaac Newton ou C. G. Jung buscaram nestas fontes os conhecimentos necessários às fundamentações científicas, resultantes nas mínimas parcelas perceptíveis e replicáveis da totalidade existencial ainda latente ou obscurecida.

Contudo, frutos destas sendas herméticas estão sendo impropriamente transformadas em utilitários de trabalho por determinados psicólogos. Exemplificando, ferramentas antigas para percepção do (in)consciente, incluindo as potencialidades humanas, atualmente passaram de práticas infundadas para testes psicológicos, próprios exclusivamente daqueles que são devidamente registrados nos Conselhos Regionais de Psicologia - CRP.

Dentre algumas destas ferramentas antigas, evidentemente renomeada no âmbito acadêmico, merece destaque o Eneagrama, brevemente conceituado por sistema composto por Eneatipos voltados à classificação da personalidade, classificada como construto exclusivo da psicologia. Analogamente, imagine um advogado, reclamando às prerrogativas exclusivas do exercício jurídico qualquer lei que passasse a existir, dizendo que ninguém, além dos próprios pares, poderiam se importar. Talvez Antoine Lavoisier jamais tivesse postulado a Lei da Conservação da Massa. Parece uma comparação estúpida, porém, assim consentem certos psicólogos ao pensarem exatamente desta maneira, quando dizem: "sendo a personalidade um construto da psicologia, somente queles devidamente registrados nos Conselhos Regionais de Psicologia - CRP devem, sobre tal matéria, realizarem suas atividades, incluindo tudo aquilo que direta ou indiretamente se vincula". Infelizmente, muitas pessoas no mundo nutrem pensamentos egoístas, repletos de ambições, impondo a própria limitação como medida aos demais, sobretudo, ocultando ou subvertendo os créditos dos verdadeiros descobridores.

Historicamente, atribuem a elaboração do Eneagrama aos sufis, praticantes do misticismo islâmico, embora existam evidências de surgimento na época de Pitágoras, sobretudo pela composição geométrica utilizada. Partindo desta informação, observe que mesmo a psicologia possui menos de cento e cinquenta anos de existência, tendo como principal origem o Instituto Wilhelm Wunt, criado em 1879, enquanto a adaptação do Sufismo para constituição de escola organizada, segundo Sirdar Ikbal Ali Shah, remonta ao século XI, restando saber como estes conhecimentos chegaram ao ocidente.

Alguns psicólogos buscaram determinar precisamente a origem do Eneagrama, apontando diversos nomes do próprio âmbito acadêmico, porém, olvidando sua gênese histórica. Nisto, parece coerente indicar que tal sistema chegou ao ocidente através de personalidades como John G. Bennett (1897-1974), alguém que estudou o oriente em universidade inglesa e obteve conhecimentos de George Ivanovich Gurdjieff (1866-1949), estudioso dos Eneatipos e técnicas de autoconhecimento desenvolvidas pelos sufistas.

Ignorando a anterioridade do conhecimento, tradicionalmente repassada nas escolas iniciáticas ou através do contato direto com mestres desta cultura, psicólogos astuciosamente renomearam esta ferramenta antiga para Teste Distributivo do Eneagrama e remeteram ao Conselho Regional de Psicologia - CRP da nona região (link) para obtenção do reconhecimento. Agora pasme: "os instrumentos relacionados acima, considerados testes psicológicos, são de uso privativo do psicólogo e somente poderão ser utilizados profissionalmente após serem enviados para a avaliação do CFP e obtiverem pareceres favoráveis".

Significa que depois do parecer favorável do Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos - SATEPSI, aquele Teste Distributivo do Eneagrama (link) somente poderá ser executado por psicólogos. Engraçado saber disto, pois aconteceu algo parecido entre os educadores físicos e artistas marciais, quando aqueles foram derrotados (link) através de decisão do Superior Tribunal de Justiça brasileiro por quererem fiscalizar algo ancestralmente repassado de mestre para discípulo. Talvez os psicólogos encontrem dificuldades no futuro se continuarem realizando apropriações indevidas como esta.

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