Veganismo Enlatado

Imagine que você esteja completamente isolado em determinado lugar, sendo impossível o acesso aos recursos alimentícios convencionais do mundo moderno. Contudo, naquele mesmo ambiente de isolamento está seu animal de estimação igualmente faminto. Restaria, portanto, observar o desdobramento daquela situação com algumas indagações. Dentre tantas, certamente uma parece persistir no imaginário das pessoas: quem comeria quem? Então, sobrevivência seria estímulo suficiente para excluir sentimentos afetivos sobre aquela criatura?

A Epítome Ontológica Universal
Quando alguém se alimenta de carne, está contribuindo para destruição da vida, concorda? Somente matando um animal é possível extrair aquele pedaço de músculo, posteriormente servido com outro nome mais gastronômico, talvez picanha no espeto, visando tornar aquela circunstância mais palatável e digestível. Contudo, imagine que aquele prato, preparado e servido com bastante requinte, contenha pedaços de seu bichinho de estimação. Será que tal culinária lhe causaria uma boa digestão depois de receber esta informação? Óbvio que este contexto parece enredo para cena de filme de terror, mas tão somente por conta da mente querer se desviar da própria realidade.

Depois de perceber ter comido o próprio animal de estimação, remorso deveria ser sentimento mais natural para aquela situação, certo? Entretanto, sendo possível relativizar tal contexto, restaria à pessoa que comeu o bichinho duas razões: ou aquele ser lhe significava mero passatempo ou conseguiu ressignificar toda situação ao ponto da indiferença. Portanto, caso típico da percepção materialista, seja como premissa ou decorrência.

Como premissa, significa que aquela pessoa jamais viu naquela criatura algo vivo como ele próprio, dotada de arbítrio e sentimentos. Decorrentemente, havendo a ressignificação, aquele animal perde a estima recebida quando transformado em objeto desprovido de vida. Desta forma, comer a carne daquele bichinho não representada absolutamente nada em termos de afetividade. Esta seria a exceção se maioria dos indivíduos não adotassem a mesma conduta nutricional baseada na matança, embora sem tomar consciência sobre.

Maioria das pessoas no ocidente ingerem carne não por aquela premissa ou decorrência, mas por não conseguirem compreender o contexto. Quando alguém faz compras no supermercado, observa as prateleiras repletas de membros sem correlacioná-los aos respectivos animais e abates necessários aos posteriores desmembramentos. Assim sendo, colocar no carrinho uma caixa de cereais ou bandeja de carne moída significa a mesma coisa, pois o referencial é o produto, não o processo ou matéria prima. Desta maneira a mente não percebe que contribui com matanças.

Agora imagine que você está num supermercado consciente. Logo na entrada da seção de carnes um funcionário lhe entrega um punhal, dizendo para ficar à vontade na escolha da parte que deseja obter para comer. Naquele lugar existem vários animais vivos, estando dentro deles aquela maminha, sobrecoxa, alcatra... Parece uma piada, certo? Imagine o tanto de esforço despendido para realizar uma alimentação carnívora. Isto fora a necessidade de matar para comer! Certamente uma batata cozida com alguns condimentos seria menos trabalhoso e mais pacífico.

Portanto, seriam os veganos mais pacíficos em termos de melhor preservarem os animais? Quando deixam de consumir carne (ovos, manteiga, leite etc.) estão automaticamente contribuindo para proteção da fauna do planeta? Depende sempre daquilo que sabem sobre aquilo que consomem. Observe que outros produtos continuam sendo fabricados mesmo diante deste boicote, restando saber se utilizam bichinhos para realizarem testes para aprovarem a distribuição massiva com segurança ao consumo. Seriam informações fáceis de obter?

Determinada empresa de cosméticos apela ao público para consumirem seus produtos por serem veganos, isentos de utilização animal em testes e produção. Solução perfeita, certo? Certamente, seria preciso averiguar a veracidade dos dados, uma vez que maioria dos consumidores apenas compram a promessa da propaganda por não disporem de condições de investigarem com precisão as informações publicadas. Além disso, existem fatores ocultados desta racionalização como poluição do ambiente pela quantidade de lixo tóxico decorrente da fabricação destes embelezadores.

Desde sua origem, apenas cresce o mercado dos cosméticos em ritmo frenético, culminando no consumo exacerbado pela imposição dos padrões mundiais de beleza, irresistível até mesmo aos praticantes do veganismo, agora buscadores de alternativas pacíficas aos animais. Lembrando os exemplos anteriores, quando in natura certas pessoas deveriam arrancar as partes desejada de seres vivos para manterem o estilo carnívoro de alimentação, igualmente deveriam os veganos extraírem das árvores as tinturas necessárias ao embelezamento desejado, desprezando por completo a indústria.

Infelizmente, tempo é fator crucial na vida de qualquer pessoa na modernidade, motivo pelo qual praticamente todos contam com facilitadores que possam trazer os alimentos e cosméticos para serem consumidos, mesmo assim, segundo suas promessas de mercado. Quando dizem que animais são seres irracionais, desprovidos de consciência, significa que você agora poderá comer uma costelinha de cabrito assada sem precisar ter emoções que não ajudam na manutenção do ritmo industrial ao maior acúmulo pecuniário pelos proprietários. Igualmente, escrever nas embalagens das maquiagens que nenhum processo animal fora utilizado na fabricação daqueles itens é apenas uma das estratégias utilizadas pelos fabricantes para conquistarem nova parcela de consumidores mais setorizados, motivando tal adesão com campanhas publicitárias para incutir no comprador a ideia de responsabilidade que tanto preza. Pouco importa a causa, advindo da indústria, impossível será determinar a procedência dos produtos sem maiores conhecimentos e fiscalização. Assim sendo, mesmo a conscientização ao veganismo pode ser substrato industrializado.

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