Nenhuma Igreja Segue os Mandamentos

Adverte este Enquirídio não possuir intenções contrárias ou favoráveis aos segmentos religiosos, senão no sentido de revelar a verdade ocultada pelas diversas instituições que aproveitam a ingenuidade da crença popular para incutir nos seguidores suas próprias verdades, contrariando as próprias escrituras, sagradas por conterem testemunhos que remontam a história da humanidade. Visando provar as incoerências institucionais, tomar-se-á adiante o catolicismo como exemplo primário, requerendo atenção apenas num único detalhe controverso, presente na interpretação dos Dez Mandamentos.

A Epítome Ontológica Universal
Igrejas da vertente protestante têm acusado ao longo dos tempos os sacerdotes do catolicismo de omitirem um mandamento presente nas tábuas da lei, qual seja, "não farás para ti imagem de escultura, figura alguma do que há em cima, nos céus, e abaixo, na terra, e nas águas, debaixo da terra". Será que estão certas?

Tanto na Torá quanto no Pentateuco é notória a transcrição desta passagem de maneira mais uniformizada, embora existam algumas diferenças (irrelevantes ao foco desta postagem), sendo mais coerente o texto proveniente da versão judaica contida no rolo que compõe o Êxodo (19-20).

Observe o trecho "não farás para ti imagem de escultura, figura alguma" e perceba as menções de maneiras conhecidas na época para representarem as percepções humanas. Apenas neste aspecto, percebe-se nitidamente o desdobramento equivocado da prática católica no tocante a adoção de representações visuais no contexto da liturgia da Igreja. Entretanto, perceba a astúcia dos sacerdotes cristãos daquela época.

Quando realizaram o Primeiro Concílio de Niceia em 325 d.C. (depois de Cristo), aqueles católicos reconheciam a importância do Deus único de Abraão, embora tenham exilado o presbítero Ário por discordar da já proclamada equiparação de Jesus ao divino, consolidada em 381 no Primeiro Concílio de Constantinopla. Significa que não era possível representar o Senhor por imagem ou figura pela incapacidade da mente humana conceber o incognoscível. Entretanto, expressar imageticamente os traços de alguém com aparência antropocêntrica não parecia contrariar o mandamento.

Segundo o Catecismo, "os conselhos evangélicos são indissociáveis dos mandamentos", reforçando o compromisso de Jesus na propagação das tábuas legadas por Deus a Moisés. Talvez isto apenas piore a situação da Igreja, uma vez que, cabendo ao Nazareno preservar aquele conteúdo, jamais poderia olvidar a primeira lei mosaica quando determina que "não terás outros deuses diante de mim". Astúcia daqueles sacerdotes em perceber que ficou proibido adoção de diferentes manifestações divinas, inexistindo impeditivo para elevação do homem ao patamar de divindade.

Naquele Primeiro Concílio de Niceia foi estabelecido que Deus encarnou na forma humana. Entretanto, mesmo Mateus, relembrando a história do nascimento de Jesus, explica que dentro do ventre de Maria estava uma procedência do Espírito Santo, especie de força intermediária que aparece nas narrativas da Torá ou Pentateuco em diversos contextos, sendo relativizado no Novo Testamento para configurar parte da trindade junto ao Pai e Filho. Parece confuso, porém, apenas quando esquecidas as passagens do Êxodo (19-20).

Aliás, confundir é questão primordial para consentir a utilização de semi-deuses pela Igreja, alegando que "a honra prestada as santas imagens é uma 'veneração respeitosa', e não uma adoração, que só compete a Deus", trazendo ainda Santo Agostinho para explicar que "o movimento que se dirige à imagem enquanto tal não termina nela, mas tende para à realidade que ela representa". Naquela época não existia semiótica ou gestalt para alertar os sacerdotes que representações dependem da bagagem interpretativa do indivíduo para realizar uma associação aproximada do significado esperado. Neste sentido, pressupõe o Catecismo a correta compreensão de todos os praticantes do catolicismo sobre aquelas referências visuais? Certamente, noutra jogada astuta, decidiram que aqueles que não fossem do sacerdócio seriam meramente leigos, dependentes de padres para dizer-lhes exatamente aquilo que precisam saber sem que entrem em contato direto com textos sagrados, sobretudo a Bíblia! Muito complicado disseminar a palavra da salvação com tantos entraves, ainda mais quando existem interesses individualistas nas instituições.

Apesar da incoerência dos católicos darem margem às críticas dos protestantes, sobre o mandamento que diz "não farás para ti imagem de escultura, figura alguma", será que estes estão isentos de culpa? Imagem não condiz apenas ao visual, mas também com projeção mental, segundo Platão. Estava certo sua filosofia, uma vez que ninguém pensa senão por aspectos que remetem realidades perceptíveis aos sentidos. Mesmo uma invocação de Deus num culto evangélico gera uma repercussão acústica na memória que por si só se classifica como símbolo.

Imagine uma pregação, donde o pastor realiza uma série de atuações para invocar a presença do divino naquele ambiente. Aquela experiência é percebida pelos sentidos, ficando condicionada na mente como indício da presença de Deus. Noutro culto, embora o líder da congregação tenha feito um ritual parecido, parece que não foi suficiente para trazer a divindade ao recinto. Neste sentido, encontrar o Senhor dependerá sempre da percepção individual, embora a crença se fundamente nos aspectos incognoscíveis do Criador.

Retornando aos Católicos, quantas pessoas não rezam, prestam homenagens e idolatram imagens santas substituindo a essência divina demonstrada ao longo da Bíblia? Ídolos como medalhas de São Benedito, estátuas de Padre Cícero ou adesivos da Virgem Maria são utilizados como receptáculos dos anseios individuais, voltados aos pedidos de milagres e proteções variadas. Mesmo um Santo é invocado para interceder ao sucesso de atividades nocivas. Afinal, muitos somente querem dos textos sagrados o proveito próprio sobre aqueles que não podem aproveitar quase nada.

4 comentários:

  1. Gostaria de dizer que li esse artigo e que discordo com absolutamente tudo que nele está escrito. A começar por criticar a Igreja sem se dar o trabalho de estudá-la a fundo, utilizando trechos soltos da Sagrada Escritura e do Catecismo numa interpretação própria e forçada para embasar-se.
    O próprio Deus que, ao falar de imagens, condena a idolatria, não a imagem em si, permite também que se façam imagens de querubins na Arca da Aliança. A Igreja não credita outros deuses, mas um só Deus, que é trinitário, sendo Pai, Filho e Espírito Santo, possuindo uma única substância, portanto sendo um só Deus, como indica Santo Atanásio. A Igreja sabiamente separa a adoração da veneração, e se existem duas palavras distintas para designar algo ou uma ação, é porque cada uma delas dá um matiz diverso da coisa ou da ação designada. Se duas palavras são absolutamente idênticas, a língua tende a eliminar uma delas.
    Adorar significa reconhecer como Deus, criador de todas as coisas. Idolatrar, por sua vez, significa em certo sentido o oposto, pois designa a ação de adorar uma criatura em vez de adorar o Criador. Portanto, materialmente, a ação de adorar e a ação de idolatrar são idênticas. Formalmente são opostas. Assim quem adora a Deus e quem adora o ídolo materialmente fazem as mesmas coisas, que formalmente são opostas. Por isso é que existem as palavras adorar e idolatrar.
    Na matéria da veneração e das imagens, teria Moisés agido errado quando fez a serpente de bronze para que os que olhassem fossem curados por ordem divina? Há excessos sim, em alguns ambientes por alguns indivíduos, mas abusus non tolit usum -- o abuso não tolhe o uso. Se alguém abusa do culto de dulia de um santo e de sua imagem, saindo da veneração para a idolatria, isso é um abuso e é condenável, mas não proíbe nem invalida o culto de dulia -- e não de latria, essa adoração -- de um santo e de sua imagem.
    Na matéria do arianismo, que nega a divindade de Cristo e sua substância ser diferente da do Pai, defendendo-o ser criado, não gerado, e a qual o senhor autor defende de maneira velada e critica a Igreja, o próprio Cristo a refuta. Eu e o Pai somos um (João X, 30). E o próprio Evangelista condena essa proposição herética logo no início de seu Evangelho: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus (João I, 1). É Jesus que anuncia que Ele está no Pai e o Pai está nEle (João XIV, 10-11).
    Não coube ao Cristo preservar aquele conteúdo do Decálogo, mas aperfeiçoá-lo, Ele anuncia "Não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas. Não vim para os abolir, mas sim para levá-los à perfeição." (Mateus V, 17). A Lei foi dada por Moisés, mas a graça e a verdade para aperfeiçoá-la vieram por Cristo. (João I, 17).
    O senhor fala, rebusca as palavras, diz de novo, repete, mas como diz o ditado popular, e talvez Schopenhauer corroborasse: fala, fala e não diz nada. Bate num espantalho criado pelos protestantes, quando nem sequer se dá o trabalho de estudar a exegética católica, essa amparada pela Tradição Apostólica e pelo Magistério, que são facilmente cognoscíveis e sem os quais não se é possível estudar a Bíblia (que surgiu dessa mesma Tradição) corretamente e sem cometer erros crassos na interpretação do Texto Sagrado, como as que o senhor e os protestantes pronunciam. Não se dá o trabalho de ler a Patrística, ou a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino, nas quais todas as questões aqui levantadas são respondidas de formas muito melhores em seus 5 volumes do que eu posso sequer sonhar em responder.
    É isso, ficam as minhas recomendações de estudos sob a exegética católica, Patrística e Escolástica, especialmente o Santo Aquino e sua Suma Teológica, para que então, sabendo o que diz a Igreja, que não é nenhum cachorro morto, criticá-la embasado em alguma base mais sólida que não um espantalho sobre areia movediça criado e posto ali por um protestante.

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  2. Saudações,
    Anônimo.

    Primeiramente, saiba que seu comentário foi muito bem recebido, sendo apreciado na íntegra o empenho em demonstrar outra perspectiva, motivo pelo qual este Enquirídio expressa sua gratidão.

    Certamente, outras pessoas poderão adquirir neste texto o ímpeto para buscarem seus próprios entendimentos, devendo ser encarado como estímulo ao invés de verdade absoluta, valendo lembrar que opiniões divergentes não são exatamente erradas ao perceber que foram formuladas observando por ângulos diferentes.

    Dialogar pressupõe cortesia, paciência e respeito.

    Gratidão pelo comentário,
    Com votos de Paz Profunda,

    Enquirídio
    A Epítome Ontológica Universal
    www.enquiridio.org

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  3. Saudações,
    Enquirídio.

    Primeiramente, fico contente que meu comentário tenha sido aceito, tanto que resolvi tornar a agradecer aqui por isso. Deus te pague. Secundariamente, ao mesmo tempo que grato pela aceitação estou decepcionado por não ter sido respondido na expectativa do que imaginei que seria. Só posso, lamentar e dizer que é uma pena, pois gostaria de ter sido propriamente respondido.

    Também lamento se em algum momento em sua visão eu lhe faltei com o devido respeito, o que não vi. Escrevi tudo da maneira mais franca que pude e sem lhe faltar com nada, especialmente a paciência, na qual passei cerca de 5 minutos lendo e outros bons 10 minutos do meu tempo escrevendo.

    Considero que sua fala dos ângulos diferentes sobre as opiniões diferentes se mostra equivocada e tende ao relativismo. Um seis não pode ser um nove ao mesmo tempo e para conhecer a verdade sobre, é necessário que os arredores sejam checados, para saber se os números são cinco e sete ou oito e dez, descobrindo assim quem está com a razão, pois a verdade é objetiva.
    Peço também o perdão por não haver me identificado. Meus amigos me chamam por Medeiros.

    Grato pela resposta, apesar de não ser como esperava.
    Pax et bonum in corde Iesu, semper.

    Medeiros

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  4. Saudações,
    Medeiros.

    Perdão pelo Enquirídio não lhe conceder uma resposta imediata, sobretudo, analisando suas colocações. Contudo, serão colocadas em meditação e pesquisa para futuras publicações.

    Sobre trecho do vosso comentário:

    Ângulos diferenciados proporcionam perspectivas diferentes, sendo, talvez, configuradas paralaxes como resultados das observações. Exemplificando, atualmente contamos com ciências específicas da comunicação para explorar as aparentes certezas do conhecimento. Quando se pensa em relativização, exempli gratia, existe uma compreensão acadêmica de base antropológica que afirmava a lei como limite. Contudo, contextos históricos são capazes de realizarem modificações legais jamais pensadas, contra correntes jurídicas majoritárias ou mesmo decisões sumulares das cortes superiores, sendo fato no presente brasileiro. Neste sentido, exegese e hermenêutica carecem da percepção semiológica acerca dos reais (fáticos) valores simbólicos, conforme a percepção popular. Significa que qualquer um poderia perceber uma coisa da maneira que lhe fosse conveniente? Jamais. Entretanto, acontece exatamente isso quando as próprias instituições relativizam suas doutrinas para se adequarem aos símbolos pertencentes ao imaginário das comunidades. Mesmo o "seis" poderia ser "nove" dependendo da convenção coletiva acerca do número. Observe: quando utilizaram a suástica para representar a bandeira do Partido Nacional-socialista dos Trabalhadores Alemães, subverteram seu sentido budista originário, porém, somente depois da Segunda Guerra Mundial, uma vez que antes não possuía valorização negativa vinculada, talvez aos opositores políticos. Checando os arredores, perceber-se-á que aquela forma comumente atribuída ao nazismo era muito mais antiga no budismo, mas por conta da adesão cultural, quem se encoraja a utilizá-la abertamente sem sofrer preconceito ou punição mais grave? Nisto a verdade vai ficando tímida, perdendo sua voz. Disto, nascem as falsas verdades, travestidas de razão absoluta. Desvelá-las dependerá do perímetro explorado. Alguns se satisfarão com algumas descobertas, sendo o bastante para afirmarem aquilo que desejam, embora isto não signifique o término real do potencial exploratório. Apenas uma conveniente pausa, pois, mais adiante, outros descobrimentos poderiam revelar pontos antagônicos aos anteriores já encontrados.

    "A diversidade de nossas opiniões não deriva do fato de uns serem melhores que outros, mas porque não levamos em conta as mesmas coisas".
    René Descartes

    Conforme dito, seus comentários são e serão muito bem vindos!
    Certamente ampliarão a percepção dos visitantes mais curiosos.

    Enquirídio
    A Epítome Ontológica Universal
    www.enquiridio.org

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