Michelangelo, Arte, Deus e Você

Segundo o livro A Arte Secreta de Michelangelo, teria deixado o clássico pintor algumas pistas anatômicas em suas obras artísticas, desde rascunhos em cadernos até afrescos na Capela Sistina, sendo a mais conhecida, ousa-se dizer, aquela cujo nome muitos desconhecem, mas lembram-na quase que intuitivamente pela enorme relevância cultural, qual seja, A Criação de Adão. Apesar da nítida semelhança entre a composição e a anatomia do cérebro humano, será que existe mais alguma mensagem velada naquela pintura?

A Epítome Ontológica Universal
Certamente, coube à arte revelar os pensamento mais intrínsecos do artista, bastando aos atentos apreciadores de qualquer que seja a obra (pintura, escultura, desenho etc.) buscarem a compreensão que lhes possam apresentar o íntimo daquela expressão, incluindo o contexto da época em nível histórico, filosófico, cultural etc.

Para conhecer a obra que ensejou o tema desta postagem, conceda alguns minutos para apreciar a composição, numa aba distinta em seu navegador, através deste link. Busque perceber todo o contexto e, depois, procure os fragmentos mais sutis. Contraste-os ao cenário da pintura e ao possível pensamento de Michelangelo.

Nitidamente, comparando a composição do lado direito do afresco, principalmente pela forma emaranhada, gerada pela aglomeração dos anjos em tons amarelados ao redor da clara figura do ancião, incluindo os véus, vermelho e verde, esvoaçando no entorno, obviamente se percebe uma anatomia cerebral, muito embora sem detalhes precisos, conforme aqueles presentes nas literaturas médicas atuais. Todas as observações necessárias para apresentar este vislumbre anatômico foram feitas pelo cirurgião oncológico Gilson Barreto, um dos autores do livro mencionado no início desta postagem, bastando ao leitor deste Enquirídio realizar uma breve pesquisa sobre a questão e, desejando, adquirir um dos exemplares em alfarrábios virtuais, uma vez que as editoras não possuem previsão para produzirem uma nova edição. Resta saber agora qual foi a intenção de Michelangelo ao criar uma imagem tão semelhante ao cérebro humano, ainda mais com a óbvia referência ao contato entre este e o personagem bíblico do Antigo Testamento.

A Epítome Ontológica Universal
Utilizando poucos recursos gráficos, parece que esta referência do cérebro humano se encaixa perfeitamente no crânio de Adão, uma vez que a figura mencionada, rebatida horizontalmente e reduzida proporcionalmente até o posicionamento correto, possui medidas que a própria anatomia pode duvidar, mas que de maneira artística são compatíveis. Independentemente desta constatação material, conforme se vê nesta pequena demonstração lateral (acima ou abaixo para quem está visualizando em smartphones), segue este Enquirídio no exame de uma mensagem bem menos materializada, possivelmente contida nesta grande alegoria do século XVI.

Dirigindo-se exclusivamente à composição que predomina no lado direito do afresco, concluindo que naquela época - e ainda hoje - o conceito de mente estava atrelado necessariamente à perspectiva puramente orgânica, sendo o cérebro o seu abrigo, percebe-se que todos os elementos estão em plena atividade, remontando as atividades cerebrais no plano físico, mas também revelando o comportamento mental pertencente ao intelecto humano. Muitos dirão que nada disto é revelador, pois tal momento retrata apenas a criação de Adão segundo o Antigo Testamento bíblico. Entretanto, nenhuma das referências visuais presentes na narrativa em Gênesis indica uma imagem como aquela proposta por Michelangelo, motivo pelo qual sua titulação remete muito mais aos dogmas da Igreja Católica do que a arte propriamente dita. Porém, nada disto é impeditivo à sequência desta explanação, pois o entendimento pretendido se vincula aos rastros semióticos que a figura pode proporcionar.

Como elemento central da composição, há uma representação de um ancião. Observe que somente ele e o homem do lado esquerdo da pintura possuem corpos com proporções equivalentes: dimensões estruturais idênticas; membros inferiores, de uma forma ou de outra, sobrepostos; membros superiores, de uma forma ou de outra, retraídos e esticados. Sem sombra de dúvida, um é semelhante ao outro - algo que reforça os argumentos trazidos em Gênesis sobre a criação do humano conforme as próprias medidas de Deus. Nisto, ninguém parece discordar. Todavia, lembrando que esta forma cerebral se encaixa proporcionalmente no crânio de Adão, sendo nítida a sua representatividade quando à anatomia, será mesmo que Michelangelo, estudioso dos fenômenos naturais e gênio das artes plásticas, resumir-se-ia tão somente ao contexto dogmático de uma instituição? Obviamente, tinha de corresponder ao que fora demandado, mas isto não o impedia como artista de externalizar sua visão sobre aquele pedido, uma vez que a autoria naquela circunstância era mais importante do que o próprio tema abordado.

A Epítome Ontológica Universal
Dentro daquela aparência cerebral existem 12 (doze) criaturas angelicais, podendo ser localizadas (sendo o centro da imagem a representação do ancião) da seguinte forma: 3 (três) no inferior e 9 (nove) no superior, ou; 4 (quatro) na esquerda e 8 (oito) na direita. Observe o todo sempre a partir deste link.

Somente estes números são capazes de revelar uma infinidade de interpretações que mesmo numerólogos experientes demorariam vários anos para desvendarem. Muito provavelmente este Enquirídio reservará uma postagem só para examinar estes detalhes, mas por enquanto, atenha-se ao conjunto da representação, pois, valendo-se dos elementos corretos, ela fala por si só! Assim sendo, substitua os anjos por arquétipos do pensamento (ou manifestações da psique) e o ancião pela Consciência Universal (ou inteligência racional). Algumas ideias certamente começam a surgir, principalmente pela parte central da composição, retratada por uma tentativa de contato intrigante entre duas potencialidades, quem sabe, do corpo com a mente.

Continue visualizando somente o lado direito da pintura. Note que há uma certa desorientação proposital nas posturas das criaturas angelicais. Caso estas possam ser representações dos arquétipos do pensamento, você não consegue distinguir se suas atitudes convergem para reforçar o posicionamento da Consciência Universal ou se estão buscando ofuscá-la, atrapalhando-a como ecos que somente a mente é capaz de produzir. Assim sendo, são verdadeiros ruídos que subvertem a razão ou, quem sabe, conhecimentos que auxiliam ao seu encontro? Talvez esta incógnita seja intencional, uma vez que, sendo o cérebro o aparelho pensante do ser humano, cabe tão somente ao seu usuário aproveitá-lo em conformidade com suas aspirações. Desta forma, Michelangelo alfineta os admiradores de sua obra, provocando-os a refletirem sobre o porquê daqueles dedos indicadores, apesar de muito próximos, simplesmente não se tocarem. Inclusive, observe que ambos os seres olham fixamente na direção das mãos, como se estivessem despendendo uma força enorme, embora delimitada por um plano extremamente sutil, para a realização deste contato.

A Epítome Ontológica Universal
Em suma, interpretando esta obra prima de Michelangelo como sendo o contato entre as potencialidades densas (corpo) e sutis (mente), ainda assim levando em consideração que aquilo que está fora é igual ao que está dentro, ou seja, sendo toda a representação uma alegoria para a conexão entre o Ser encarnado e o seu Ser transcendental, algo pertencente ao plano cósmico, quais seriam os impasses para que estas qualidades aparentemente extremas possam se tocar? Doutra forma, como você se conectará com Deus? Será que seus pensamentos estão lhe ajudando nesse processo ou simplesmente o retardam cada dia mais? Embora não seja esta a crença ou raciocínio a atingir, quais são as chances da sua racionalidade condicionada ao mundo fático lhe impedir de conhecer a verdadeira razão que habita em todos os seres viventes e que também está presente no micro e macro Cosmo? Mesmo à divindade que habita o seu âmago, será que o acesso aos seus mistérios e virtudes está completamente aberto ou existem barreiras que, como na arte, esteja causando este estreito, mas paradoxalmente amplo distanciamento? Observe que o dedo indicador daquela representação do ancião está completamente esticado, como se este estivesse sempre de prontidão para ser acessado. Contudo, resta nítido que o homem ainda precisa se esforçar mais, pois sua falange se encontra curvada, revelando certa objeção ao toque divino (preste atenção ao movimento do tronco, completamente inclinado para o lado oposto), uma vez que está muito bem acomodado sobre a matéria, completamente repousado somente sobre aquilo que lhe é visualmente tangível.

Este contato com a Consciência Universal (ou inteligência racional) poderia (ou pode) ter sido uma das inspirações de Michelangelo ao compor A Criação de Adão. Certamente, todos os elementos para este vislumbre estão presentes, ainda mais com observações documentadas em livro por cirurgião, por sorte apreciador da arte, cuja experiência em anatomia proporcionou a detecção destas pistas. Coube apenas ao Enquirídio mostrar que, além da percepção material, existe também uma vertente holística, capaz de trazer reflexões sutis sobre a necessidade da reintegração do Ser.

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