O Vazio: Dois Lados da Mesma Moeda

Existem duas maneiras de se interpretar o "vazio" do contexto humano: uma, ocidental, relembrada pelos antigos quando dizem que "cabeça vazia é oficina do diabo"; outra, oriental, recitada por monges quando explicam que "é preciso esvaziar a mente para compreender algo novo". Vários termos são dualísticos, porém dependentes de conceitos que certamente são atribuídos com respaldo em alguma doutrina, por exemplo, católica ou zen-budista, restando ao símbolo originado repercutir taxativamente entre os obstinados, gerando discórdia pela mera e egoica incapacidade de adequação.

A Epítome Ontológica Universal
Estar com a "cabeça vazia" não significa ser pouco intelectual ou desgostar de livros, por exemplo. Estas duas qualidades certamente ajudam muito no desenvolvimento pessoal, mas não é pela ausência destas que a "atuação do diabo" se dá, uma vez que muitas pessoas são bastante intuitivas e concentram ótima condição moral e ética para exercerem suas vidas íntimas e no âmbito das exigências sociais. Entregar as rédeas da consciência à mente é - e sempre será - o grande problema daqueles que parecem ocos na região pensante, embora também inexista um perfil padrão para este gênero, motivo pelo qual depende muito do tempo e do espaço aplicado.

Mesmo Cristo ou Buda entravam em conflito com suas mentes, pois o poder que ela exerce sobre o Ser é esmagador, estando presente incansavelmente durante todo o tempo, seja em estado de vigilância ou mesmo em repouso. Neste sentido, não "preencher a cabeça" é permitir que esta entidade maliciosa, geralmente apegada aos piores contextos do mundo materializado, domine a consciência, incutindo pensamentos desprovidos de razão.

Muitas pessoas simplesmente não sabem lidar com a mente e, justamente por conta disto, terminam entoando um mantra vicioso e cíclico de "não posso". Isto não ocorre por incapacidade, mas por comodismo, pois lutar contra este "diabo", depois de lhe ter dado total consentimento sobre sua cabeça, é um verdadeiro processo de reintegração de posse, cabendo-lhe decidir se seu andamento será moroso (como na Justiça brasileira) ou célere. Reconhecer a inércia mental é o primeiro passo para vencer essa disputa difícil antes de restabelecer a ordem.

Outra questão se revela exatamente quando a mente está cheia, porém com preconcepções diante de algo que se pretende descobrir. Como alguém pode realmente admirar um quadro ou ouvir uma música com prejulgamentos? Neste sentido é que a mente precisa ser esvaziada, pois, doutra forma, não haverá espaço para acomodar novas perspectivas. Ela buscará resistir ao silenciamento, mas somente a colocando em posição de subserviência é possível perceber o mundo ao redor, extraindo lições mais sutis que jamais um professor ensinará.

Buscar o contexto das expressões é sem sombra de dúvida imprescindível para não cometer qualquer equívoco, sendo certo a dupla utilização de vários termos para expressar ideias diferentes, pois tudo é dual. Rigidez com terminologias é demonstração de inflexibilidade mental, uma vez que está muito bem repousada em conceitos empurrados goela abaixo, sem qualquer apreciação intelectual ou mesmo intuitiva, repetindo frases soltas sem examiná-las apropriadamente. Conforme a necessidade, utilize o "vazio" sempre em favor do seu próprio Ser - e não da mente!

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