Deus Não Aceita Barganhas

O conto de João e o Pé de Feijão é o clássico exemplo da barganha, onde é possível obter ganhos mediante sacrifícios aparentes. Apesar disto, nesta ficção não existem motivos para preocupações, pois tudo acaba com um final feliz. Seria intrigante se o mesmo padrão de acontecimentos ocorresse mediante pechinchas com o Tao, a Onisciência, a Onipotência e a Onipresença criadora, mantenedora e destruidora do Uno e do Verso. Não se preocupe com estes conceitos, pois todos serão explicados nesta postagem.

A Epítome Ontológica Universal
Caso você não se lembre do conto João e o Pé de Feijão (parâmetro para a construção das analogias que virão), trata-se de um garoto que barganhou uma vaca, pela qual nutria grande afetividade, por feijões mágicos. Sua mãe havia lhe atribuído a responsabilidade de vender o animal na feira, com instruções para que não desse atenção a qualquer outra pessoa que não fosse o comprador. Inconformada com tamanha ingenuidade do filho, atirou pela janela os grãos, que por ocasiões fantásticas, conseguiram germinar. Noutro dia, eis que brota um gigantesco pé de feijão, cujo topo não se podia enxergar, uma vez que havia ultrapassado a altura das nuvens.

João, após escalar o enorme talo em diversas oportunidades e usurpar os itens dourados do castelo do gigante na nuvem, cortou o único acesso entre o céu e a terra, qual seja, o pé de feijão, para que não pudesse ser apanhado (final do conto). Certamente você pode pensar que tudo isso ocorreu como forma de recompensa (sobre a venda da sua companheira). Esta reflexão seria perfeitamente válida, se o menino não a tivesse barganhado com o mago que lhe entregara os feijões mágicos. Assim, e se eles fossem uma farsa, ou seja, grãos normais? Supondo que mesmo assim eles fossem plantados, visando talvez uma pequena lavoura, será que o ganho a ser obtido na colheita compensaria o valor da vaca? Outras interpretações para este conto com certeza podem ser realizadas, talvez com a finalidade de penetrar em simbolismos mais profundos. Mas para esta publicação, todo o foco se concentrará na superficialidade da narrativa acerca da barganha voltada à recompensa instantânea, separada, talvez, por um irrisório intervalo de tempo.


A Epítome Ontológica Universal
Em suma, o Tao, termo cuja tradução literal do chinês para o português significa Caminho, não interage de acordo com os eventos contidos no conto de João e o Pé de Feijão. Não há magos, nem feijões mágicos, muito menos castelos de gigantes nas nuvens em suas concepções objetivas. Contudo, subjetivamente, poder-se-ia dizer que é possível encontrar um "pote de ouro" no final do arco-íris ao compreender quão imensa é a sua realidade, mas para tanto, é preciso criar um forte intuito de esforço para se aproximar de seus conceitos abstratos, cujas revelações não são tão fáceis do ponto de vista concreto. Também não é preciso ser um monge celibatário para atingir tais entendimentos.

Lao Zi foi o grande responsável pela definição do Tao, mas suas primeiras lições deixam bem claro que não é possível denominar o inominável. Ou seja, ao tentar explicar o seu conceito sobre a Onisciência, a Onipotência e a Onipresença criadora, mantenedora e destruidora do Uno e do Verso, ele estaria automaticamente se refutando? Sim, por isso o chama apenas de Caminho. Poderia ser qualquer nome: Deus, Consciência Cósmica, Todo Poderoso, Grande Arquiteto do Universo, Vishnu, Adonai, YHWH, Alá etc. Obviamente, jamais existirá um acordo sobre estas terminologias, uma vez que as culturas, no decorrer do tempo, revestiram suas crenças de acordo com os seus próprios interesses, motivo pelo qual hoje não se pode dizer, diante de uma concepção superficial, que uma nomenclatura divina é igual a outra. Isto somente gera conflitos. Talvez por isto aquele ancião chinês tenha tomado bastante cuidado ao escrever sobre algo tão profundo em seu livro: o Tao Te Ching.

Segundo este clássico, "o Céu e a Terra não são bondosos. Com as dez mil coisas [referindo-se a tudo que existe, existiu e há de existir] faz cães de palha [objetos utilizados em rituais de sacrifícios pelos chineses, revelando certa característica descartável]". Isto não significa dizer que o Caminho é perverso. São apenas metáforas que confluem para o movimento da natureza. Ora, ela não te envia um e-mail avisando sobre a chuva que está para cair, embora possa lhe apresentar sinais sobre o acontecimento, como nuvens carregadas. Não adiantará dizer - sabe-se lá para onde ou para quem - que não precisa molhar o solo por ora ou que não proceda com o derramamento d'água por conta da reposição dos telhados da casa, que estava programada para aquele dia. Não! Isto seria completamente inútil! Somente o ser autointitulado racional é capaz de não compreender sua inferioridade diante dos desígnios divinos. Isto, pois não se vê animais tidos por irracionais se movimentando contra os acontecimentos inerentes ao planeta em que habitam. Eles apenas seguem o fluxo natural, respeitando o perpétuo estado de mutação das vibrações que os cercam.

Em termos mais digestíveis, o Tao Te Ching, em seu quinto aforismo, revela apenas que a natureza não faz qualquer distinção. Ela não pode ser considerada ruim por compactuar com erupções vulcânicas ou abalos sísmicos, nem ser declarada boa por providenciar chuvas na seca ou brisas no calor. Por enquanto, esta visão se encontra limitada em níveis materialmente didáticos, uma vez que sua totalidade envolve outras dimensões do conhecimento. Basta saber, por agora, que o Caminho é indiferente para com todos, pois não possui preferências.


A Epítome Ontológica Universal
Como seria possível barganhar com o Tao, assim como João fez pelo pé de feijão, se suas propriedades não permitem qualquer distinção? Porque o Caminho escolheria um, não outro, se inexistem preferências? Aliás, seria possível individualizar, mesmo que de maneira mental e num plano bastante elevado de energização (como uma prece ou oração), a Onisciência, a Onipotência e a Onipresença criadora, mantenedora e destruidora do Uno e do Verso? Ou seja, fazendo isso, será mesmo que Deus voltaria suas atenções apenas para uma de suas próprias reproduções? Isto não seria o mesmo que invocar, fazer com que uma força superior possa intervir momentaneamente?

Não se trata da fé (independentemente dos dogmas institucionais) como uma espécie de pensamento positivo que coaduna com o Cosmo em prol de um benefício legítimo. Trata-se de imaginar que, por hora, você seja a pessoa a receber maior quantidade de atenção vinda de Deus. É possível achar que a água molhará mais a um do que a outro, mesmo sabendo que todos estão no mesmo oceano?

Quem sabe toda a história de João e o Pé de Feijão não passe de um grande arquétipo egocêntrico, onde um garoto que mente, barganha, rouba e mata consegue fugir impune. Sem contar que ele ainda se casa com uma princesa e tem uma vida feliz. Esta não é a realidade! Infelizmente, o Tao funciona mais ou menos com uma grande administradora de cartões de crédito sem taxa de anuidade, que lhe cede uma margem de gasto para cobrar no futuro, embora sua fatura não possua uma data de validade predeterminada.

A barganha de João pelos feijões mágicos foi tão somente para diluir seus problemas materialistas imediatos. Uma maneira fantástica de não enfrentar os próprios problemas, deixando à sorte a resolução dos mesmos, como se fossem providências de uma interferência divina. Mas não se engane: isto somente acontece em contos. Seria um atalho ilusório diante do Caminho realista. Em outros termos, seria o mesmo que se valer de trapaças para ganhar na vida - e isso gera consequências sem a menor sombra de dúvida.

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