Por Um Jesus Mais Humano!

Uma das críticas menos comuns aos evangelhos cristãos é sobre a omissão de características puramente humanas de Jesus, incluindo o significado de sua ressurreição ou renascimento. Muitos compreendem esse fenômeno como verídico, contudo denotativamente, comprometendo a proximidade das pessoas aos exemplos mencionados em diversas passagens da bíblia, qualificadas como dignas somente de um autêntico messias, enviado por Deus para ser aquilo que os homens não procuram ser. Isso prejudicou muito a imagem de Cristo como modelo de bem-aventurado.

A Epítome Ontológica Universal
Fazer o que Jesus fez, como dar a outra face ou doar sem querer nada em troca, parece uma conduta inatingível ao homem diante da sociedade contemporânea, ainda mais quando os valores mais básicos de harmonia entre os seres são diariamente corrompidos por ideias vãs e mesquinhas, desprovidas de empatia.

Contudo, igrejas no mundo todo terminam afastando as pessoas de Jesus, quando condicionam tais condutas a uma entidade inatingível, uma vez que somente o Mestre e mais ninguém possui poderes sobrenaturais, tais quais andar sobre a água ou transformá-la em vinho. Isso não deve ser benéfico.

Jesus tomou a frente na batalha dos homens numa época conturbada por acreditar que seria o exemplo a ser seguido! Explicou o que era Deus e quão acessíveis são os seus mistérios aos que ouvem a voz da razão interior que habita cada um durante esta curta passagem por este plano terreno. Justamente por curar a cegueira daqueles que não mais podiam enxergar com os próprios olhos ou resgatar do "reino dos mortos" aqueles que tiveram suas esperanças esvaídas pela opressão dos tiranos, restou ao Nazareno conhecer o que fazem os poderosos para manterem seus negócios intocados. Dominar toda a população, subvertendo sua liberdade para facilitar a imposição de interesses pessoais é a política não imaginada por Aristóteles, porém desempenhada desde a formação da primeira forma de governo. Ninguém poderia contra uma massa influenciada, condicionada aos ditames do império. Foi muito fácil condenar o Mestre ao invés de Barrabás, pois aquele representava uma ameaça maior do que este, uma vez que suas palavras eram fortes, divinamente inspiradas.

Assim sendo, condenaram Jesus para que morresse por crucificação, um método doloroso para eliminar uma vida, imputada aos mais terríveis criminosos daquele tempo e região. Depois de autorizados, levaram seus seguidores os restos mortais do Nazareno para uma caverna sepulcral. Isto poderia ter sido o fim do Mestre neste plano terreno se sua mensagem não tivesse sido bem fundada na pedra que ele próprio selecionara para edificar sua igreja. Como se deu a sua ressurreição talvez seja menos importante do que como seus ensinamentos foram crucificados. Observe que independentemente de como o Senhor tenha se reerguido, seja denotativa ou conotativamente (sentido figurado), parece que a sabedoria em sua passagem neste mundo se tornou inatingível! Ninguém está habilitado a seguir seus passos senão por intermédio de alguém que se diz legitimado para em nome dele expressar sua própria vontade, assim como faziam os imperadores que condenaram Cristo para morrer dolorosamente na cruz. Basta perceber que os livros que você talvez possua hoje compõe a versão autorizada de uma bíblia concebida sob sangrentas deliberações daqueles que se auto-proclamaram herdeiros da igreja de Pedro.

No instante em que se auto-proclamaram cristãos, aquele corpo de juízes, deliberantes sobre a verdadeira biografia de Cristo, elevou Jesus ao status de divindade, dizendo à todos, embora noutras palavras: somente um Deus seria capaz de manter aquelas condutas. Desta forma, toda bem-aventurança ensinada pelo Nazareno se tornou inalcançável para pessoas comuns, restando à elas a condição de eternas pecadoras. Pequem, pois o Senhor já redimiu toda humanidade, sendo, portanto, incontestável salvador. Será mesmo que ele queria isso?

Endeusar Jesus foi tão trágico quanto a sua própria crucificação, pois, em ambos os casos, sequestraram-no do povo como exemplo a ser seguido. Primeiramente, removeram-no do contato com aqueles que podiam presenciá-lo em vida, experienciando junto ao Mestre as bem-aventuranças que o mesmo seguia e ensinava. Seguidamente, tempos depois de sua morte, elevaram-no ao panteão celestial, cujo acesso somente se dá por meio dos auto-proclamados herdeiros da igreja de Pedro. De lá para cá, cada vez menos parece saber o Nazareno o que quer, pois muitos passaram a falar por ele!

Deixe que o Mestre fale por si próprio! Que ele diga o que importa - e isso ele já fez muito bem quando legou o Sermão da Montanha, passível de compreensão e aplicação. Mesmo seus ensinamentos para além destas lições são perceptíveis na narrativa bíblica, cujas verdades restaram evidenciadas pela força da razão, impeditivo único de qualquer violação decorrente das várias transcrições e traduções. Assim falou Jesus: bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus! Que assim seja - e não por intermédio de falácias ardilosas de falsos profetas.

Desta forma, seguindo os exemplos em vida daquele que viveu para ensinar como viver, certamente Jesus ressuscitará todas as vezes em que sua palavra tocar um coração puro, isento das nebulosidades institucionais daqueles que acreditam representá-lo hoje, embora em nada se assemelhem ao Mestre naquele passado, detentor único das verdades por ele próprio proferidas. Entre "a fé nos ensinamentos de Cristo ser o alicerce da sua igreja" e "a sua igreja ser o alicerce da fé nos ensinamentos de Cristo" existe uma diferença apocalíptica! Tenha cuidado - é o que deseja este Enquirídio.

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