Qual o Todo da Lei de Crowley?

Esta postagem não tem por objetivo revelar o que é o "todo da Lei", principalmente pela extensão que demandaria, causando uma leitura morosa e deveras complicada. Definitivamente, ninguém em sã consciência deveria tentar algo deste gênero, pois, mesmo que para si tudo reste muito claro, será impossível transmitir o conhecimento adquirido, uma vez que cada qual somente detém aquilo que deseja, sendo a ignorância ou desconhecimento puro reflexo de uma vontade a ser respeitada. Assim sendo, seguem adiante algumas reflexões sobre ao que se condiciona a premissa "faz o que tu queres".

A Epítome Ontológica Universal
Logo no primeiro capítulo do Liber AL vel Legis, escrito (ou recebido) pelo ocultista Aleister Crowley, consta a seguinte premissa: "Faze o que tu queres há de ser o todo da Lei". Parece um comando providencial para agir segundo próprias vontades, independente de consequências, resultando numa interpretação equivocada.

Extrair apenas um trecho de texto, excluindo o contexto, além de rimar, relembra equívocos cometidos pelos homens ao longo dos tempos, quando daquelas leituras gananciosas de obras consideradas sagradas, extraem aquilo que desejam utilizar para dobrarem vontades alheias aos seus próprios interesses.

Contudo, Crowley parece ter deixado bem claro algumas condições relativas ao "todo da Lei". Dentre outras, "vontade pura, aliviada de objetivo, livre do desejo de resultado, é de todo modo perfeita". Quando alguém faz algo sob inspiração cósmica, isento da mentalidade egoica, estará interagindo com as latências universais. Basta pensar que querer algo para concretizar uma necessidade real é completamente diferente de desejar determinada coisa para que, por decorrência disto, sejam suas ânsias satisfeitas, embora somente condigam com um mero capricho, repleto de segundas intenções. Desta forma, aquele que age sem observar essas condições, termina acreditando que o preceito o isenta de responsabilidades, principalmente cármicas, uma vez que é livre para fazer o que lhe der na telha. Entretanto, mesmo uma atitude subversiva, embora imperfeita, ainda faz parte da totalidade do livre arbítrio. Aquilo que acontece no mundo não pode ser de outro lugar senão dele mesmo, motivo pelo qual continua, mesmo horrendo, pertencendo ao mesmo plano.

Adiante, Crowley aponta mais uma condição relativa ao "todo da Lei", explicando que: "amor é a lei, amor sob vontade". Perceba que as condicionais se somam através da leitura do Liber AL vel Legis, pois, conforme visto, vontade é algo desprovido de segundas intenções, sendo condição para amar, uma vez que esta caracteriza a própria regra. Certamente, este Enquirídio não possui qualquer intenção de expandir comentários ao livro, muito menos revelar seus enigmas mais velados, mas alertar aos que desavisadamente acreditam naquilo que querem, não no que está escrito.

Finalmente, "não existe lei além de Faze o que tu queres", lembrando logo adiante que "todas as questões da Lei são para serem decididas apenas por apelos aos meus escritos, cada qual por si mesmo". Deveras inteligente, porém ainda permita persistir uma pequena questão: será que esta escritura está livre do desejo de resultado, aliviada de objetivo, sendo vontade pura? Neste ponto, visando não mais incorrer em "centros de pestilências", cabe ao leitor se questionar sem qualquer indução, aquelas verdades, assim como a própria finalidade da obra.

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