O Problema da Institucionalização

Durante as últimas décadas, praticamente todas as reivindicações populares (advindas do próprio povo) passaram a pertencer a um ou outro partido político específico, elevando supostamente o nível da necessidade pleiteada, embora nem todos os demandantes precisem ou concordem com apadrinhamentos partidários, passando estes a serem considerados por aqueles como divergentes e automaticamente inimigos por se recusarem a interagir com a causa de forma unitária. Este processo de adesão e exclusão são típicos das institucionalizações.

A Epítome Ontológica Universal
Exemplificando, imagine que sua causa seja comum dentro de um universo aparentemente isolado, onde pessoas com pensamentos semelhantes queiram reivindicar determinada atenção para certo assunto, talvez um direito esquecido pela própria sociedade com o passar do tempo e modificação dos costumes.

Independentemente da sigla, certo partido político resolve "abraçar a causa", levantando fundos e promovendo notoriedade necessária ao agrupamento de pessoas com interesses correlatos, apesar de nada ser por acaso, pois interesses existem desde que as civilizações começaram a se erguer na antiguidade.

Discordando, portanto, certa parte dos demandantes das condições impostas pelo partido político ao cobrarem como contrapartida ao "abraço da causa" a filiação partidária, resolvem pleitear independentemente, expondo suas próprias definições. Neste momento, eis que surge o efeito da institucionalização, quando aquele que possui maiores prerrogativas e organização declara sua iniciativa (por apadrinhamento) a única legitimada a pleitear aqueles determinados direitos.

Isto faz com que qualquer outra vertente reivindicatória pareça falsa ou desprovida de credibilidade. Quando um partido político (ou empresa privada - lembrando que isto existe) institucionaliza uma causa, todas as informações devem ser estritamente orquestradas (normal em qualquer organização). Aquelas expressões que forem destoantes, certamente irão passar por uma avaliação para adoção ou rejeição. Entretanto, demais opiniões levantadas por grupos distintos, mesmo que apartidaristas, geralmente são minimizadas por aqueles que dominam o bloco institucional.

Quando uma demanda é institucionalizada, parece que qualquer razão exposta fora dela é digna de rebaixamento sumário. Isto sem contar com a contaminação ideológica! Absurdo, evidentemente, mas muitas pessoas acreditam serem incapazes de lutarem por suas opiniões sem que sejam amparadas por um patrono, alguém com suposta legitimidade de causa. Noutra visão, ocorre também um fenômeno intrigante sobre as reivindicações: polarização. Quando uma demanda sofre uma institucionalização, acaba consequentemente aderindo à orientação política de quem a institucionalizou.

Então, caso um partido político ou empresa privada seja mais isso ou aquilo, passa a ser também "mais isso ou aquilo" a demanda por ela institucionalizada. Disto, sem perceber, todos os apadrinhados passam não só a apoiar a própria causa, mas também os motivos ideológicos daquelas instituições. Neste sentido, aqueles que divergiram originariamente sobre a reivindicação, lutando independentemente dos institutos, agora também podem ser duplamente banalizados por não aderirem ao ideal daqueles apadrinhadores.

Simplificando, inicialmente a causa era de 100% dos demandante, que logo discordaram quando uma entidade passou a apadrinhar o pleito, fazendo esse porcentagem cair para metade, restando 50% institucionalizada e a outra parte independente. Acontece que agora esta parcela apadrinhada não só diverge dos independentes, talvez no quesito relacionado ao modo como as reivindicações serão expressadas, mas também por adotarem uma orientação política "mais isso ou aquilo", buscando uma homogenização ideológica dos direitos.

Exemplificando, imagine que para lutar pela preservação do meio ambiente exista um clube específico que centraliza todas as ações de maneira absurda (através das mídias de massa, palanques de discursos, difusão impressa de comunicados dentre outros). Você pode se interessar pela questão e querer contribuir, mas, para tanto, terá de aceitar que a Terra é o centro do universo e que azul é melhor do que vermelho. Talvez suas preferências sejam antagônicas e, embora a necessidade de conscientizar a população sobre os males da degradação ambiental seja extrema, deixa de prestar a sua parcela de colaboração por conta daquele sistema estar vinculado a pensamentos contrários as comprovações científicas. Desta forma, resolve pleitear tal consciência de forma individual, talvez juntamente com grupos menores e independentes. Acontece que a instituição apadrinhadora possui interesses que talvez não sejam os mesmos daqueles individualistas, motivo pelo qual realiza uma propaganda dizendo que somente sua vertente possui legitimidade para atuar, descredenciando os demais por não aderirem-na, rebaixando-as em níveis de ilegalidade.

Hoje o mundo globalizado interage desta maneira. Instituições que detém poderes terminam oprimindo a liberdade do povo oferecendo falsas vantagens, realizando um verdadeiro trabalho de recrutamento. Depois das institucionalizações, parece que todas as demandas, mesmo as mais urgentes, precisam passar por um filtro de compatibilidade com os detentores dos meios para a suposta concretização das causas. Caso algum pleito não esteja adequado aos requisitos ideológicos, certamente será rejeitado e banalizado, geralmente por não interessar aos ideais ou serem antagônicos (embora tão somente neste aspecto). Disto sobrevém a morosidade nas formulações legislativas ou ao próprio esquecimentos de direitos. Muitas dificuldades, porém revestidas de ideias destoantes aos objetivos principais. Assim sendo, que a luta pelas "meias amarelas" seja especificamente por elas mesmas e não pelas marcas que as fabricam ou pelos prováveis pés que as calçarão. Quanto mais pessoas, independentemente de serem destros ou canhotos, calejados ou sadios, cambotas ou aprumados, mais intenso será o seu direcionamento e concretização.

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