O Fator Determinante no Processo Terapêutico

Certo individuo, compartilhando um pouco de sua biografia, revelou que possuía certos receios, desdobrados geralmente em questionamentos sobre pessoas estranhas ao seu convívio no intuito de perceber se elas detinham determinadas características que lhes parecem intimidadoras. Padrão de pensamento que se repetia a cada nova relação interpessoal, porém em face de apenas um dos gêneros. Dentro da literatura psicológica, alguns termos buscam classificar a conduta para melhor compreender a pessoa em seu contexto, muito embora não possa ser classificado como tratamento.

A Epítome Ontológica Universal
Quando a psicologia investiga os desdobramentos da mente em função de determinada realidade (lembrando que o que é real decorre de uma mera perspectiva cognitiva), busca primeiramente catalogá-los numa espécie de matriz padrão, quando, somente depois, analisa-os com melhor margem de segurança para diagnosticar o problema.

Diversas nomenclaturas foram conferidas à tais matrizes para que, quando determinado problema reste adequado aos seus padrões, emerjam assertivamente as condutas terapêuticas, visando administrar o contexto da realidade trazida por aquele que demanda, por vontade própria, auxílio psicológico.

Esse procedimento lembra os rituais de exorcismo praticados pelos padres católicos, quando, para que um determinado demônio possa ser expulso de um corpo, precisa-se, antes de tudo, reconhecer o nome da entidade possessiva. Somente através deste processo cognitivo o exorcista poderá empregar as liturgias necessárias para administrar a situação, resultando como decorrência de sua intervenção o desaparecimento daquelas características de possessão. Analogamente falando, muito bem se relacionam as entidades demoníacas com aquelas matrizes, cujos padrões foram identificados pela psicologia, porém dentro dos parâmetros essencialmente sociais, passíveis de modificações por força do tempo, principal fator de transformação mental. Assim sendo, enquanto certo modo de conviver recebia reprovação da sociedade numa época, atualmente pode transcorrer como algo normal (vice e versa), excluindo-se qualquer possibilidade do terapeuta ser desprovido de pré-conceitos, uma vez que o mesmo se encontra inserido naquele sistema social, onde os valores dependem do referencial.

Lembrando daquela pessoa mencionada na introdução desta postagem, vale informar que ela recentemente fora alvo de uma grave violência moral (quando não há atitude física) por um membro de seu núcleo familiar. Depois desta experiência pavorosa, passou a desempenhar aquele tipo de comportamento mental (pensamentos sobre a possibilidade violenta de estranhos) ao se deparar com quem quer que fosse daquele gênero (de quem havia lhe violentado moralmente). Isto se tornou algo constante com o passar do tempo.

Dentro do conhecimento psicológico, há evidentemente uma matriz que se encaixa naqueles pensamentos, porém de uma maneira generalizada, uma vez que cada caso possui sua própria realidade particularizada. Após a adequação, qualquer terapeuta poderá confortavelmente lidar com a situação apresentada, intervindo assertivamente ao empregar uma conduta que vise administrar aquele conteúdo socialmente incompatível, uma vez que nem toda pessoa estranha, daquele gênero específico, figura alguém provido de violência incontrolável, muito menos membro de seu núcleo familiar.

Acontece que a sociedade possui parâmetros que supostamente deveriam ajudar na convivência harmônica, diminuindo os efeitos naturais daquele estado de alerta constante ao eminente perigo, percebidos quando pessoas estranhas (ou não) se encontram ou se deparam com eventos nunca experienciados como eclipses solares, abalos sísmicos ou mesmo agressões animais. Neste sentido, parece claro que qualquer acontecimento jamais cogitado (como aquela violência moral) pode causar impressões tais quais aquelas decorrentes do senso comum.

Senso comum, conforme Albert Einstein, não passa de um aglomerado de preconceitos, impingidos naqueles que ainda não atingiram a maturidade (sendo esta, assim como sua teoria, bastante relativa). Pense que a violência moral sofrida por alguém que jamais a cogitou equivale a maior catástrofe natural se assim a pessoa compreendê-la como tal, pouco importando o que diz os parâmetros sociais, uma vez que o evento se desdobrou num universo particularizado, denominado adiante de Fator Determinante às reações posteriores face ao contexto geral.

Dentro desse contexto geral, aquela pessoa passou a ponderar suas condutas com estranhos, ainda mais perante aquele gênero específico, por conta do Fator Determinante. Seus relacionamentos pessoais passaram a ser calibrados, pois tudo parecia indício de violência, não por ser, mas pelas memórias absorvidas e relembradas automaticamente pela mente, Disto surgiram algumas limitações, como a impossibilidade de lidar com tons de vozes mais altos (ou alterados). Certamente um ponto marcante daquela experiência vivenciada anteriormente.

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Quando alguém com estas limitações procura auxílio terapêutico, antes de receber o tratamento correto, passa por uma filtragem para que seu problema possa se encaixar numa matriz, passando a ser tratado(a) como aquele que possui isso ou aquilo, geralmente uma designação do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais.

Esta identificação pode demorar muitos anos, pois o maior processo de reconhecimento dentro da terapia psicológica não incide no problema, mas acerca de quem é a pessoa auxiliada e qual o contexto daqueles desdobramentos mentais. Basicamente uma odisseia na mente alheia ou um safári nas memórias de outrem.

Exploração que visa identificar o problema para posteriormente encaixá-lo numa matriz adequada, embora possa esta gerar mais danos do que reparos, sendo estes últimos realmente impossíveis (motivos explicados adiante). Perceba que os desdobramentos mentais somente ganham relevância quando revelam sua forma, momento em que são colocados rapidamente numa estrutura previamente definida para que, daí então, possam ser administrados pelo terapeuta.

Parece que a maior necessidade é justamente de o terapeuta encontrar a matriz correta para lidar com aquele Fator Determinante. Depois disso, certamente ficará mais confiante para desenvolver a psicologia diante daquela demanda, pois agora não se trata mais de uma experiência isolada, mas algo já catalogado genericamente por similaridade. Contudo, esquece que o mundo daquela pessoa possui pesos e medidas diferentes daqueles outros que, através de estatísticas e acúmulo de informações correlatas, formam diagnósticos atrelados à época.

Isto significa dizer que a maior necessidade na psicologia é justamente do terapeuta e não da pessoa que lhe solicitou ajuda, uma vez que, até encontrar a matriz adequada, permanece o problema em stand by, sendo explorado para que um dia, quem sabe, revele a sua forma. Quando este Enquirídio diz que esta odisseia na mente alheia poderá gerar mais danos do que reparos é porque este simplesmente não existe! Como alguém pode consertar algo tão volátil quanto o pensamento? Isto não quer dizer que os psicólogos façam isso, mas garante um alerta aos que pensam nesta possibilidade absurda.

Imagine que ao caso exemplificado, aquela pessoa durante o processo de conhecimento, realizado em sessões desenvolvidas atualmente em míseros trinta minutos (em algumas clínicas), entrará em contato por diversas vezes com um passado do qual possui sentimentos negativos. Certamente não sentirá mais medo, pois naquele momento o contexto aparenta ser mais favorável, longe da violência eminente. Contudo, reviverá todas as cenas do Fator Determinante até que, por pura rotina, possa se acostumar e compreender com detalhes tudo que experienciou.

Basicamente um passeio assistido aos contextos absorvidos pela mente. Lembra, analogamente falando, aquela situação de medo das crianças, quando correm para cama de seus pais dizendo que viu um  monstro assustador em seu quarto. Nesta noite a mãe estava muito cansada, pelo que restou ao pai reconduzir a filha ao quarto, acendendo as luzes e mostrando que aquela sensação fora provocada porque no canto da porta havia um objeto, cuja silhueta no escuro aparentava o bicho do filme de terror que tinham assistido juntos naquela semana.

Agora imagine que aquele pai, doutro modo, fomentou a imaginação da filha para que contasse os detalhes dessa experiência, visando compreender qual o tipo de monstro que lhe havia amedrontado. Somente após vislumbrar qual tipo de bicho seria aquele, lembrando ainda que poderia muito bem ser parecido com qualquer um de um filme de terror, pediu para que a criança, certamente após lhe explicar tudo conforme seu ponto de vista, retornasse ao quarto e prestasse melhor atenção às circunstâncias, buscando promover um entendimento acerca do Fator Determinante.

Qualquer um que seja exposto por diversas vezes num determinado contexto passará a observá-lo de maneira mais apática. Basta perceber como alguém reage num passeio de montanha russa. Numa primeira vez há sempre uma agonia, talvez um receio inconsciente, porém lógico, uma vez que a pessoa sofrerá um desprendimento de uma altura mortal, seguido imediatamente por movimentos de forças gravitacionais nada habituais. Após algumas subidas e descidas, toda experiência parece natural, mesmo não sendo. Desta forma, aquela sensação inicial de incerteza perante um brinquedo de parque de diversões se converte facilmente numa reação espontânea, condizente com alguém que já passou por aquilo de tal forma que agora consegue conviver com esta realidade de maneira mais corriqueira. Mesmo diante de outro aparelho mais potente, existirá uma base de dados sensitivos em sua memória que garantirá um conforto para melhor aproveitamento desse novo entretenimento, permitindo interações mais racionais, uma vez que o contexto a ser submetido, embora premeditadamente, já está intimamente familiarizado.

Conduzir alguém ao Fator Determinante, mesmo que em uma única oportunidade, não resultará em tratamento, mas em calejamento mental. Adquirir resistência às exposições àquele passado indesejado não é garantia de superação, muito menos de cura. Afinal, qualquer um que precise passar pelo mesmo problema todos os dias, ao certo se tornará mais indiferente. Nenhuma reconstrução de cena do crime reproduz fielmente o que aconteceu naquele instante. Igualmente, nenhuma odisseia na mente alheia será capaz de trazer à tona imagens idênticas ao momento do fato. Somente recordações, mesmo assim imperfeitas, semelhantes ao que aconteceu, emergindo mais criações decorrentes destas explorações do que memórias fidedignas. Assim sendo, trabalhará o terapeuta não com a matéria prima, mas com a sua possibilidade de ser, motivo pelo qual nenhuma conduta, mesmo havendo manuais que aproximem os efeitos às respectivas causas, deverá ser a mesma somente porque algumas matrizes sintetizaram um conjunto de comportamentos como isso ou aquilo, embora uma possa conter ou estar contida na outra, inexistindo, portanto, diagnóstico específico.

A Epítome Ontológica Universal
Ainda hoje existem conflitos sobre a catalogação de determinados problemas mentais nas matrizes que as caracterizam, bastando visualizar possibilidades de uma noutra, além dos amplos espectros e suas respectivas divisões, quando há, mesmo que para efeitos didáticos do conhecimento terapêutico.

Percebendo que conduzir alguém ao Fator Determinante apenas irá expô-lo ao contexto do problema indesejado, ainda assim com a possibilidade de agravar a situação (uma vez que, na ausência de informações precisas, cabe a mente preenchê-las com achismos ou deduções, isto quando o terapeuta equivocadamente não provoca alguma indução), parece sádico tal exploração apenas para identificar a matriz que supostamente (lembrando de sua imprecisão) indicará a melhor conduta para melhor administrar os contextos trazidos em sessão. Isto se a abordagem psicológica desempenhada não prezar pelo calejamento mental, algo que mesmo alguém sem qualquer instrução ou domínio de técnica poderia aplicar (lembrando o velho ditado sobre água mole em pedra dura).

Cuidar de alguém que precise de ajuda, ainda mais sobre questões inerentes ao pensamento, requer abordagens menos desgastantes, porém mais enérgicas, capazes de conduzir aquele que demanda auxílio terapêutico às realizações concretas, permitindo que ele possa perceber o problema naturalmente ao passo que dele consiga se distanciar, excluindo-o de suas correntes mentais ao ponto de reconquistar o domínio sobre si próprio. Existem diversas formas de se fazer isso, mas infelizmente nenhuma encontra abrigo junto à psicologia contemporânea, não significando de modo algum dizer que não há psicólogos que as utilizem ou que criem outros métodos para atingirem as mesmas qualidades elencadas. Fora do universo psicológico também se pode encontrar terapeutas inexperientes, desprovidos de meios para utilização consciente das metodologias desta vertente, muito embora se propaguem como solução última para diversas resoluções. Evidentemente que esta explanação não procura diminuir nem aumentar lados. Apenas demonstra como paradigmas como estes são amplamente suscetíveis de questionamentos, sendo mais relativos do que concretos.

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