A Democracia Quantitativa

Principalmente no Brasil, democracia sempre foi condicionada aos ditames da maioria. Prerrogativa falha, uma vez que outras hipóteses, inclusive legais, recaem para melhor balizar a necessidade do povo, pois todos são demandantes de algo, porém dentro de suas próprias medidas. Neste sentido, será que uma minoria não necessita de nada? Aquelas pessoas que ficaram no "lado dos perdedores" não merecem ser ouvidas? Quem sabe penas devam se conformar com os efeitos do sistema democrático, respeitando incondicionalmente as imposições dos "ganhadores"?

A Epítome Ontológica Universal
Toda explanação será mínima para demonstrar os efeitos que a democracia, conforme o modo operacional atual, causa na população de uma forma ou de outra, embora exista um parâmetro explícito que simplesmente parece saltar ao entendimento de quem quer que seja: democratização como sinônimo de quantidade.

Numa eleição, elege-se quem recebe maioria dos votos, correto? Contudo, será que o eleito compreende que deva atender não só as demandas da parcela que o elegeu, mas também aquela que lhe fizera oposição (não necessariamente ativa)? Parece uma questão óbvia, mas politicamente as coisas mudam.

Dentro do sistema político, principalmente no Brasil, maioria sempre indicará o compromisso do eleito. Mantendo esta parcela crente de suas propostas, para quê se importar com a quantidade derrotada? Sempre serão a minoria sob esta perspectiva. Infelizmente a matemática não erra e as demandas provenientes da oposição eleitoral são diminuídas, uma vez que, democraticamente, não merecerão atenção se destoarem daqueles que efetivamente elegeram.

Perceba que uma democracia como a brasileira é meramente quantitativa. Qualidade nunca foi seu forte e nem será se continuar operando neste sistema. Enquanto as pessoas forem reduzidas a números, jamais conseguirão se expressar, pois é muito fácil, observando apenas a quantidade, dez derrubarem três. Também é muito conveniente jogarem os ímpares contra os pares, pois dividir é conquistar. Segregar a minoria certamente é a melhor estratégia no processo de democratização segundo a vontade da maioria, embora nada disso seja moral, muito menos ético.

Perante o processo civilizatório, seria justo o que tem menos receber mais. Igualmente, parece injusto aquele que trabalha mais receber menos, concorda? Neste quesito, tão somente quantidade está sendo observado. Seguindo essa lógica, poderia ser considerado correto tirar daquele que tanto se esforça no labor, transferindo parte dos seus rendimentos para aquele que nada faz, mesmo estando plenamente saudável e instruído socialmente? São questões que demandam reflexões mais aprofundadas, demandantes de tópicos específicos para o debate.

Contudo, existe algo muito simples que parece ser bem democrático. Imagine duas pessoas tentando avistar algo por trás de um muro. Uma é muito alta e outra é muito baixa. Para que ambas possam estar numa condição de visibilidade, precisam de caixotes como apoio. Dentro de um processo realmente democratizante, restaria como objeto de política oferecer uma forma daqueles dois conseguirem o acesso que precisam. Assim sendo, diante de critérios qualitativos, enquanto o mais cumprido recebeu um caixote (conseguindo ver perfeitamente a partir de então), recebera o dobro disto o mais curto (vendo tal qual seu colega de demanda). Conforme o viés quantitativo, tudo não passaria de uma imensa injustiça, pois foram conferidos suportes desproporcionalmente, sendo o correto cada um obter a mesma quantidade, embora isto não significasse resolução do problema ou resolução, porém com desperdício de recursos. Mesmo assuntos mais simples são convertidos em questões relacionadas a quantia, onde possuir o quíntuplo representa melhor qualidade do que deter apenas o triplo. Grande parte da população brasileira acredita nesta perspectiva deturpada de que "quem tem um, não tem nada".

Apenas para ilustrar, todos querem mais saúde e, como pensamento lógico, atribuem a necessidade de mais médicos. Contudo, não imaginam que precisam manter melhores hábitos alimentares, por exemplo. Acreditam que uma quantidade maior de medicamentos seja sinônimos de bem-estar. Talvez a matemática neste ponto deva ser inversamente proporcional para englobar ambos os quesitos (quantitativo e qualitativo). Neste sentido, quanto melhor for sua higienização, menor será a chance de adquirir uma doença e, consequentemente, a demanda por idas de vindas aos hospitais.

Mesmo assim, ainda existirão minorias que merecem todos os ouvidos, pois muitos precisam de atenções dedicadas por possuírem problemas evidentemente específicos, como são os deficientes físicos e aqueles nitidamente debilitados - e aqui vem o tapa na democracia quantitativa: elevadores de shoppings centers são próprios para pessoas deste gênero! Então não os ocupe se você consegue tomar uma escada (rolante em maioria dos casos). Desta inércia preguiçosa nascem as maiores opressões, pois como cobrar da política para que ouça o "grito dos excluídos" se individualmente suas atitudes podem ser as mais excludentes possíveis? Estacionar em vaga de estacionamento reservada a idoso sem sê-lo é opressão desde quando? Sim, desde quando se apropriar de algo que não lhe pertence é prática de furto, mesmo que não tipificado desta forma. Sabe quanto esse processo democrático dará certo no país? Quando as pessoas respeitarem as necessidades alheias como se delas próprias fossem, acabando de uma vez por todas com esse maiorismo que somente atua em proveito de uma parcela, embora por um tempo limitado, quando os esmagados depois passaram a ser os esmagadores.

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