A Ciência da Natureza

Através da ciência, fenômenos naturais anteriormente incompreensíveis passaram a ser reproduzíveis e utilizáveis em larga escala, desde gigantes geradores de energia até minúsculos processadores de dados. Sintomas clínicos, antes indecifráveis, rapidamente são identificadas por escaneamentos corporais em aparelhos de ultrassom. Trabalhos penosos, dificilmente empreendidos anteriormente, agora são desenvolvidos por robôs inteligentes, capazes de realizar tarefas em números impossíveis aos limites humanos. Entretanto, algo parece estar passando despercebido.

A Epítome Ontológica Universal
Conforme a história do desenvolvimento tecnológico, proveniente de constantes pesquisas ao longo dos séculos, atualmente a sociedade contempla inúmeras maravilhas advindas deste universo científico, capaz de precisar informações variadas sobre uma imensidão de assuntos para que possam ser fielmente reproduzidas. Mesmo que algumas lacunas ainda existam sobre temas nitidamente mais profundos, praticamente todas as questões basilares permitiram um melhor condicionamento humano através dos produtos resultantes desses empenhos científicos, desde maquinários industriais até aparelhos médicos.

Mesmo com toda ciência, excluindo por enquanto os feitos mais obscuros como armas, bombas, tóxicos dentre uma infinidade de produtos letais, parece que aquele fascínio por medidas atômicas, velocidades supersônicas e transmissões ondulares tem substituído a razão primária da pesquisa científica, uma vez que sua justificativa, baseada na compreensão da natureza, inverteu-se em "natureza da compreensão".

Certamente, possuir uma capacidade para repetir algo tal qual o original corresponde a uma certeza tranquilizadora, mas até que ponto? Existem paradoxos e questões incognoscíveis que simplesmente traspassam as capacidades científicas travestidas de "natureza da compreensão", geralmente refletidas num ceticismo exacerbado e fatalista, diminuidor de grandezas e ironicamente crente nos seus próprios postulados como verdades últimas dos fenômenos universais. Desta forma, toda percepção da naturalidade das coisas foi abandonada por uma realidade meramente artificial.

Ciência é uma maneira de conhecer a natureza, mas não o meio para vivenciá-la.

Através de instrumentos de precisão como telescópios ou microscópios o homem passou a conhecer as polaridades macro e micro do universo. Acumulando conhecimento sobre as propriedades naturais como magnetismo, eletricidade e gravitação, criou aparelhos para tentar tornar a vida mais cômoda. Entretanto, acerca deste último quesito, parece que o artifício superou a natureza em número, grau e gênero, uma vez que passou a representar uma constante indispensável, assumindo uma naturalidade diante da humanidade.

Imagine conhecer uma flor. Para a ciência, conhecê-la é desmembrá-la em minúsculas frações para que, reagindo aos químicos, possam ser reveladas propriedades antes indetectáveis enquanto inteira. Contudo, adquirir conhecimentos desta proporção exigem sacrifícios, mesmo que a própria aniquilação daquela estrutura da planta. Cientificamente, estudar uma orquídea é dissecar o seu cadáver, pois, para que possa ser desmembrada, precisa estar morta - e assim, conhecer é inversamente proporcional a vivenciar.

Ninguém quer vivenciar apenas uma fração de um relacionamento ou os restos mortais de um ente querido. Não! Isto seria um desejo egoico e deveras insano. Nem mesmo os cientistas mais céticos gostariam de se relacionarem com metade de suas respectivas esposas e filhos. Acredita-se que eles desejam vivenciá-los como um todo, completos por força da natureza. Isto é muito diferente daquilo que se faz com a flor em nível de conhecimento científico, quando toda percepção resta baseada nos vestígios do que um dia fora uma vida.

A Epítome Ontológica Universal
Conhecer as moléculas que indicam sua fragrância, as partículas que revelam sua cromatização, os pedaços que definem sua consistência nunca será o mesmo que inalar o aroma, vislumbrar as cores, sentir a textura das pétalas de uma rosa. Simplesmente, existem coisas que jamais serão transmitidas pela ciência.

Através da ciência, smartphones passaram a existir dentro do cotidiano humano, facilitando a interação comunicativa e promovendo algumas facilidades como a possibilidade de capturar imagens da natureza para compartilha-las em redes sociais, visando não apenas apreciação, mas uma aprovação como contraprestação mental.

Neste sentido, através dos produtos derivados da ciência, sendo o smartphone apenas um dentre vários, maioria das pessoas acreditam estarem vivenciando a natureza, catalogando momentos e capturando fotografias. Embora esteticamente bonitas, ainda continuam sendo imagens de algo real, passível de experimentação in loco. Contudo, com tanta facilidade atualmente, será mesmo que as pesquisas científicas estão abrindo mais portas para a naturalidade, para oportunidades de vivência junto aos mistérios do universo, ou tornando tudo um pouco mais artificial, algo mais próximo daquele ceticismo fatalista que reduz a vida ao resultado de reações químicas, onde a matéria seria a única razão da existência em suas múltiplas afinidades? Sim, muitos cientistas seguem suas carreiras pelo fascínio da grandiosidade do mundo, das estrelas, do cosmo, mas os resultados de suas pesquisas terminam fomentando os interesses de um setor industrial exclusivo, capaz de destruir o próprio objeto de trabalho dos pesquisadores: a vida.

Observar o líquido através das suas moléculas, dentro de um laboratório especializado, certamente é uma maneira de conhecer a natureza e suas propriedades, mas somente mergulhando num rio límpido será possível vivenciar as características da água, sentindo sua temperatura e a sensação refrescante num dia ensolarado do verão tropical. Mesmo que alguém compreenda as formações daqueles elementos naturais, parece que somente a vivência junto ao meio ambiente proporciona a harmonia para entrar em contato direto com a naturalidade do universo.

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