Você É o Que Produz?

Diante de uma sociedade analítica, donde muitos necessitam de referenciais comprobatórios para se permitirem aos relacionamentos interpessoais, catalogando e separando o útil do descartável, será que as referências oriundas dos esforços voltados à produção de valores monetários são suficientes para determinarem as potencialidades de alguém em meio aos seus semelhantes? Quem sabe estes limites sociais não sejam apenas reducionismos para que cada um possa se sentir confortável e seguro sobre as estruturas humanas que os circundam?

A Epítome Ontológica Universal
Depois desta introdução prolixa, basta se questionar sobre o seguinte: profissão mede alguém? Será mesmo que um advogado é mais essencial do que um gari? Em termos de humanidade, ambos condizem com a preservação do ecossistema, proporcionando qualidade para vidas futuras mais equidistantes?

Inúmeras pessoas geram rótulos imediatos, associando o gari a alguém desprovido de qualidades enquanto somam ao advogado os melhores adjetivos possíveis, mas tão somente por conta daquilo que a imagem representa, esquecendo geralmente da parte mais primordial: o conteúdo humano.

Imagine que num determinado lugar hipotético, um advogado assumiu as responsabilidades (pela parte que lhe cabia) de um empreendimento, resolvendo e promovendo soluções em nome dos proprietários. Contudo, os donos do negócio receberam uma cobrança que já havia sido solucionada (conforme documentação) pelo operador do direito em questão. Após o recebimento de outros comunicados, descobriram que todo trabalho desenvolvido por aquele profissional da justiça não passava de fraude, que ele não tinha feito absolutamente nada do que disse, incluindo uma extensa papelada, porém forjada. Pense por um momento em todas as consequências sofridas por uma família que fora ludibriada por uma mera aparência. Que infelizmente perdeu seu comércio, imóvel, veículo, credibilidade, estabilidade, sustento e até mesmo parente, fatalizado por um choque emocional. Certamente, todas as forças se somaram para que o conselho de classe (no caso do Brasil, a OAB) penalizasse aquele profissional. Entretanto, tudo se resolveu?

Muitas pessoas no mundo ainda julgam demais pela aparência, pelo status, pelas posses que alguém possa ter, mesmo que momentaneamente. Destes julgamentos, escalonam níveis de importância, colocando o advogado, talvez, junto aos profissionais essenciais para a humanidade enquanto o gari resta lotado na derradeira posição. Nada disto se refere ao ser humano, alguém que possui valores independentemente do labor que desempenha, pois muitos atualmente assumem funções não por afinidade, mas por pura necessidade num planeta aparentemente dominado por materialistas.

Após uma jornada de trabalho, sabe-se lá com o que se ocupa um gari! Existem inúmeros cursos sendo ofertados gratuitamente, por um baixo custo ou com facilidades econômicas. Ninguém pode dizer que ele não possa estar aproveitando uma dessas oportunidades. Inclusive, qualquer um que possua acesso a livros pode extrair lições sobre física quântica, medicina tradicional ou filosofia aplicada, bastando apenas paciência, interesse e dedicação. Desta forma, quem importa mais à humanidade: alguém em busca de conhecimento, porém aplicando aquilo beneficamente em prol de seus semelhantes, ou um indivíduo voltado somente aos seus egocentrismos? Neste ponto, qualquer um poderá ocupar uma destas polaridades, sendo a questão mais crucial: como reconhecer alguém verdadeiramente? Será mesmo que a "escolha" profissional é capaz de deixar pistas para que todos possam afirmar ser um ou outro uma melhor pessoa somente pelo que realiza como meio de obtenção monetária? Este reducionismo parece se acentuar cada vez mais, fazendo com que a capa supere o conteúdo de um livro como se fosse, por si só, suficiente para se compreendê-lo.

Finalmente, inexistindo necessidades jurídicas, também deixariam de existir advogados. Igualmente, não havendo produção de lixo, nenhum gari seria preciso. Este mundo (utópico, infelizmente) seria muito mais harmonioso! Entretanto, havendo demanda, seja por justiça ou por limpeza, ambos profissionais são igualmente necessários, mudando apenas um pequeno detalhe: o conteúdo humano, merecedor exclusivo de reconhecimento, não adiantando fazer mais ou melhor caso o produto destes esforços esteja voltado exclusivamente ao egoísmo, numa desenfreada corrida materialista.

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