Ser ou Estar? Eis a Questão

Na postagem Você É o Que Produz? este Enquirídio propôs uma reflexão sobre os valores que a famigerada sociedade incute ao aspecto que alguém possa aparentar. Adentrando um pouco mais neste mérito, vale questionar também a diferença entre ser e estar, pois, embora não pareça, há uma enorme diferença e suas implicâncias somente serão incididas posteriormente. Portando, não se trata de uma mera questão gramatical, mas perceptiva, uma vez que, enquanto uma se relaciona ao conteúdo essencial humano, a outra se baseia tão somente no contexto social.

A Epítome Ontológica Universal
Não se trada de um monólogo trágico como em Hamlet ("ser ou não ser"), pois a questão fica localizada em algum espaço entre o essencial e o decorrente, uma vez que aquele trata do homem e este de sua imagem perante uma ficção denominada sociedade. Observe adiante em linhas breve onde este raciocínio simples pretende chegar.

Você se percebe como produto da expectativa daquilo que a sociedade anseia ou possui plena convicção de sua essência independentemente do que os outros possam pensar? Confuso? Basta observar quantas pessoas acham que são quando na verdade estão apenas de passagem, incluindo aquilo que produzem.

Sobre um juiz, seria possível afirmar que aquela pessoa que profere sentenças é um substrato daquilo que produz? Sumariamente sim, mas pense adiante: ele perdurará como tal até deixar este plano ou em algum momento deixará de fazer aquilo pelo qual é lembrado enquanto magistrado? Perceba que num nível social, quem quer que exerça algo pode estar vinculado a um cargo, função ou serviço, embora isto não signifique que ela seja aquilo que desempenha.

Ser pressupõe algo mais. Ninguém será juiz eternamente. Mesmo com todo prestígio que o cargo impõe numa sociedade, num determinado dia aquele que sentenciava deixará de assim proceder pois a própria ficção que o incutiu e difundiu tal valor será a responsável por dizer: "obrigado, mas não precisamos mais de você. Pode descansar e aproveitar o restante da sua vida da forma que melhor convir". Neste exato ponto, quantos não solucionam seus problemas, oriundos de um ego vinculado ao antigo ofício, portando títulos de reconhecimento compostos pelo prefixo "ex"?

Contudo, mesmo este prefixo não resolve a questão visualizada por este Enquirídio, pois "ex", cuja origem remonta o latim, significa "aquilo que alguém foi, mas já não é". Antes mesmo que determinada pessoa pudesse dizer "eu sou", houve um tempo em que ela simplesmente não ostentava tal designação. Somente depois de uma investidura, muitas vezes excessivamente formal (já que é praxe diante de uma sociedade estereotipada), será possível afirmar ser algo, muito embora por um tempo rigidamente definido.

Este intervalo entre "ser" e "não mais ser" se denomina "estar", algo que indica posicionamentos, sejam eles de ordem temporal ou geográfica, essenciais para a manutenção e compreensão dos artifícios gerados por uma sociedade baseada unicamente em pesos e medidas. Desta forma, quando um juiz afirma que é, em verdade confessa que está, pois mais adiante será tão somente um "ex", inútil para praticar ofício agora desempenhado por um substituto mais jovem. Talvez consiga exercer advocacia, mesmo como consultor, mas jamais a antiga função.

Analogamente, quando duas pessoas (realmente humanas) buscam união, procuram o casamento e não uma possibilidade de serem "ex" um do outro. Isto, pois almejam ser, não estarem. Afinal, quando alguém se apaixona por outro, não há ficção social, jurídica ou política que desmanche os sentimentos de correspondência mútua. Desta maneira, aquele que se encontra realmente neste estado percebe que há algo muito mais interior que nem mesmo ele consegue impedir, sabendo que esta emanação é desvinculada de qualquer paradigma.

A Epítome Ontológica Universal
Aquele que está apaixonado, em verdade, deseja ser, mais que tudo, um só com outro alguém e, em sendo, conseguem gerar aquilo que sempre será, independentemente de qualquer crueldade mundana que o possa reduzir numa folha de papel à condição de estar, a emanação mais preciosa derivada de dois seres.

Ninguém se refere ao fruto de uma união como aquele que está filho(a), pois este sempre será, mesmo depois do final dos tempos de seus pais, que também serão, mesmo num outro plano existencial. Tudo isto para demonstrar o quão essencial é o ser, que, tão somente por conta desta força misteriosa, o é por simplesmente nascer.

Assim sendo, buscando exemplo da união, capaz de gerar um ser pela fusão dos opostos numa única existência, que força emana do centro da sua alma para que possa dizer, sem interferência dos anseios alheios e expectativas sociais, "eu sou isso"? Ou seja, você pode estar juiz (para continuar com o exemplo dado), desempenhando suas funções por um determinado período antes de se aposentar, mas independentemente desta condição transitória, o que de fato você é? Caso não existissem dedos alheios apontando para onde cada um deveria ir, que tipo de vivente é possível observar ao se olhar no espelho? Será que um médico, por exemplo, é alguém cuidadoso, voltado aos cuidados com o próximo, ou somente está na função por almejar status para melhor se relacionar diante de uma sociedade que incute "altos valores" aos que estão em "posições privilegiadas" (no seio da ficção, logicamente), visando que outros possam permutar favores e consolidarem mutuamente seus desejos mais materialistas?

Quando alguém é, ela sente constantemente o mesmo que um casal apaixonado, uma vontade de se conectar com aquilo que mais enaltece suas características naturais, podendo estar por várias vezes em qualquer condição, porém sem se desvincular daquilo que sabe ser. Esta é a grande diferença entre os homens baseados na ficção e aqueles que independem disto. Seres como Krishna, Buda e Cristo, que jamais se distanciaram do caminho. Loucos! Não por rejeitarem o meio onde habitavam, mas por simplesmente encará-lo naturalmente, da forma como ele é e não como estão modelados segundo os ideais daqueles que assim os declararam inatingíveis, rebelados e insanos, como se quisessem que os "meros mortais" não buscassem naqueles as qualidades e inspirações para as suas próprias essências. Isto é o que um conglomerado de estantes, pessoas que estão (etimologicamente, "que ficam firmes") incutem inconscientemente, pois assim também foram incutidos, perpetuando um processo cíclico irracional para justificarem suas próprias ignorâncias sobre si mesmos. Afinal, inscrito no pátio do Templo de Apolo em Delfos se encontra o aforismo: "conhece-te a Ti mesmo e conhecerás os Deuses e o Universo".

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