Assim Falou Jerusalém

No filme Kingdom of Heaven, Balduíno IV, o Rei de Jerusalém, num dos seus primeiros encontros com Balian, personagem interpretado por Orlando Bloom, observando um tabuleiro de xadrez a sua frente, disse-lhe: "lembre-se que independente da forma como forem jogados ou por quem, sua alma pertence apenas à você, mesmo que aqueles que te induzirem a jogar sejam reis ou homens de poder. Quando você estiver diante de Deus, você não pode dizer: 'mas me foi dito por outros a fazer assim', ou que a virtude não era conveniente no momento. Isso não será suficiente".

A Epítome Ontológica Universal
Em outras palavras, aquele que comete um ato é responsável pelo mesmo ainda que praticado em nome de outro, independentemente da condição em que se encontre, seja sob coação ou oferta, pois a justiça divina não reconhece mandatários. Não há como dizer para Deus (Tao, Consciência Universal, Cosmos etc.) que suas ações se basearam na vontade alheia e que, por isto, não pode ser responsabilizado pelo que fez. Afinal, mesmo que o seu ânimo não se basei naquela finalidade, esta certamente é o meio para a obtenção de algo, nada importando se o desfecho não lhe for desejado, embora o percorra e contribua ativamente para seu acontecimento.

Quando o Balian rejeitou o pedido de Balduíno IV para que se casasse com sua irmã (para que o reinado não caísse nas mãos de um tirano e completo irresponsável), o fez por crer num "Reino de Consciência". "Ou isto, ou nada" foi basicamente  a síntese das regras legadas por Godfrey, seu pai e Senhor de Ibelin, enquanto decaia devido a sua saúde abalada por um ferimento de flecha. Lógico, pois não era de sua legítima vontade, motivo pelo qual não poderia "agir por outro". Isto significa que, mesmo diante de uma oportunidade aparentemente irresistível, jamais uma ação poderá ser justificada senão em nome próprio. Nenhuma pessoa, mesmo sendo o ente mais próximo da família, poderá executar ordens, instruções ou conselhos para depois ausentar sua participação, conferindo a outro a titularidade do feito como se houvesse qualquer meio procuratório que desvinculasse algo de um para outro. Juridicamente, politicamente ou socialmente sim, mas naturalmente? Felizmente não há como burlar a onisciência, a onipresença e a onipotência.

Parece uma mensagem qualquer, facilmente encontrada em livros de autoajuda e espiritualidade, mas não se engane: mesmo uma curta cena de um filme pode contar verdades incontestáveis, que precisam ser urgentemente apreciadas para que o mundo seja um lugar mais consciente. Pena que muitas pessoas ainda utilizem da irresponsabilidade para culpar terceiros por suas ações negativas. Entretanto, jamais abdicando da titularidade de feitos positivos. Aliás, mais fácil jogar a poeira para debaixo do tapete, certo?

Certamente o mundo atualmente é mais complexo do que antigamente. Talvez por conta das inúmeras sociedades existentes como a financeira, a religiosa, a política etc. Muitas pessoas se baseiam em sistemas hierárquicos e, por decorrência, acabam fazendo algo por outro. Apesar desta corriqueira circunstância das relações condicionais humanas no atual estado civilizatório, aquilo que "falou" Jerusalém (Balduíno IV) independe dos conceitos criados pelo homem, mesmo em sua mais intrincada formulação intelectual, toda justificativa será inútil diante do Criador, Mantedor e Destruidor. Toda ação praticada por alguém somente pertence a ele próprio, jamais havendo possibilidade para transferência de autoria (nem implicância de coautoria) perante o mais puro fluxo de consciência que ainda circula pela Terra. Desta forma, apenas faça aquilo que lhe seja genuinamente espontâneo, pois uma das preciosidades mais caras deste universo é estar em paz consigo mesmo, livre de qualquer peso na mente e em harmonia com tudo aquilo que existe. Estar ciente do princípio ao fim, independentemente de todos, porém a tudo interligado.

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