Carma, Transmigração e Carl Sagan

Muitas culturas, tanto orientais como ocidentais, costumam condicionar os efeitos cármicos aos eventos ocorridos em vivências anteriores, restando à vida corrente uma chance de diminuí-los, evitando consequentemente suas perpetuações em outras encarnações. Contudo, perspectiva mais contemporânea revela maior preocupação com o momento presente, uma vez que grande parte da população mundial termina endereçando suas responsabilidades aos tempos futuros e passados, muitas vezes se valendo destes conceitos ancestrais.

A Epítome Ontológica Universal
Sempre se ouviu dizer que carma era uma espécie de consequência oriunda de vidas anteriores, que corroboravam para efeitos negativos durante a vivência de quem quer que fosse. Certamente, questões destes gêneros, quando aparentemente carentes de explicações lógicas, são facilmente atribuídas aos desfechos doutras encarnações.

Acontece que esta perspectiva é extremamente perigosa, pois usurpa de qualquer existência a faculdade de modificar o seu destino terreno, como se este já estivesse traçado, incluindo as punições ainda não cumpridas ou acumuladas nas vidas anteriores. Desta forma, nunca uma "roda reencarnatória" acabará de girar.

Supondo que o conteúdo transmigratório de qualquer existência retorna à origem, cabe buscar compreender (sendo isto um trabalho completamente esotérico, intrínseco, pessoal etc.) algumas questões sobre as partículas etéreas, ocupantes dos seres, que retornam ao ponto originário de todas as outras quando deixam de animar o que quer que seja. Será que elas conseguem carregar particularidades vividas pelos entes terrenos ao berço universal?

Cada ser, excluindo-se o evidente corpóreo (matéria) e intelectual (psíquico), resta constituído em essência por algo extremamente sutil, denominado (dependendo da cultura) alma e/ou espírito. Independentemente da nomenclatura, pois isto muda conforme a tradição (esotérica, religiosa, espírita etc.), imagina-se que tal parte etérea possa ser constituída de uma porção transmigratória (capaz de retornar à origem) e doutra circunstanciada pela própria situação terrena, estando mais próxima da dualidade corpo/mente.

Infelizmente existe uma parte confusa que precisa ser mencionada antes de chegar no objetivo desta postagem: tudo aquilo que foi, é e será pertence ao berço universal, sendo-o também de maneira manifestada enquanto neste plano existencial e latente enquanto potencialidade de acontecer, porém ausente de qualquer forma ou preconcepção. Parece difícil ao buscador noviço, mas é questão de tempo até compreender tais sutilezas, geralmente confundidas por conta dos vários nomes atribuídos pelas diversas culturas existentes ao convívio do homem.

Desta forma, se tudo advém da origem, sendo ela também parte manifestada, existe algo individualizado, que possa ser chamado de meu (ou eu)? Sim, mas não. Perceba que no intervalo entre o nascimento e a morte, a vida recebe a animação necessária para existir, inicialmente no ventre e depois fora dele. Este ânimo vital não decorre somente de reações físicas ou químicas, mas do próprio berço universal. Quando os genitores doam suas partes para formarem outra(s), não atuam como criadores, mas como doadores de materiais indispensáveis à concepção de algo que deve habitar a Terra, um meio materializado (não confundir com materialista). Todo esse processo de fecundação abriga (e o são) forças cósmicas, incapazes de serem concebidas artificialmente, mesmo pela mente mais brilhante de um cientista cético (que não deixa de ser revelação deste mesmo princípio presente em tudo o que foi, é e será). Mesmo o resultado deste acontecimento é incerto, uma vez que a matéria pode ser imperfeita para receber a outra parcela (podendo acontecer aquilo que restou denominado nas tradições biológicas por natimorto).

Dentro de algumas tradições, quando deste resultado (da junção dos materiais dos genitores) há a possibilidade de receber a outra parcela daquele conteúdo sutil para a plena existência no plano terrestre, acontece a criação da vida. Em qual momento isto acontece, por exemplo, numa gestação? Infelizmente isto é muito incerto e até perigoso de se comentar, pois no mundo dos homens, qualquer desculpa pode fatalizar a possibilidade de uma vivência, sendo mais sensato conter os excessos da mente e tudo o que não for desejado, evitando soluções "finais" no futuro.

Admitindo que esta perspectiva esteja, pelo menos, ampliando possibilidades, sabendo inclusive que o homem possui uma parte sutil própria, que lhe acompanha desde a junção de materiais essenciais pelos genitores até sua retirada do plano terreno, e outra que é adicionada para que possa realmente usufruir do poder da vida, resta observar que ambas advém da mesma origem, porém (e ainda assim didaticamente falando) com atribuições diferentes. Qual destas, portanto, consegue transmigrar? Realizando a transmigração, haveria possibilidade ao carma?

Transmigrar é a passagem da porção sutil (advinda da origem, não dos genitores) do ser para um local onde perdurará até que possa animar outra vida. Através desta concepção, seria possível responder o questionamento sobre aquela parte etérea ser capaz de retornar ao berço universal com particularidades do plano terreno, fator crucial para a existência do que seria o carma ancestral, acumulado, conforme afirmações de algumas religiões, por ações de vivências passadas. Suponha que você encarna, faz algumas besteiras e morre de velhice, por exemplo. Daí reencarna, mas tem uma doença inexplicável que será evidentemente relacionada (dependendo da cultura) a uma atitude errada tomada na encarnação anterior, embora ainda esteja nesta nova "oportunidade" cometendo erros e, consequentemente, gerando mais complicações cármicas. Isto jamais terá fim, pois, diante de tanta imperfeição, independentemente da esfera em que o homem atue (incluindo as ficções econômicas e sociais), resta impossível parar esta "roda cármica". Tudo não passaria de condenação. Mas se as forças cósmicas foram, são e serão, seria possível elas se auto-castigarem?

Noutros termos, esta "alma" abandonaria a matéria morta, passaria um tempo junto ao criador (ou no limbo, inferno, purgatório etc.), e, somente depois de alguns anos (impossíveis de serem calculados), voltariam a animar outro ser. Muitos acreditam nisso e, por conta exatamente disto, defendem que esta porção sutil possui resquícios de particularidades das vidas passadas, motivo pelo qual (agora utilizando uma linguagem mais acessível) Deus o reconheceria e lhe cobraria (punindo-o) pelos erros cometidos em vivências anteriores.

Carl Sagan, cientista brilhante e de uma sensibilidade ímpar, certa vez comentou que "Nós somos uma maneira do Cosmos conhecer a Si mesmo". Pensamento que reduz toda a complexidade do assunto sobre o carma e a possibilidade de transmigração da "alma" ao mais íntimo nível de investigação, pois se cada um é uma manifestação daquilo que este Enquirídio veio chamando de berço universal, qual seria a vantagem deste animar o que quer que seja (visando descobrir novas vertentes sobre ele mesmo) com preconcepções anteriores?

Admitindo que a origem se manifesta pelo o que quer que seja (uma animal, um homem, um inseto etc.) para praticar a vida, abandonando (ao menos em menores frações) sua forma latente, seria trabalhoso construir uma vertente que explicasse os motivos pelos quais o Cosmos puniria a si mesmo para justificar a promoção do carma ancestral (sem ofender, logicamente, qualquer divergência). Contudo, as questões cármicas ainda assim continuam existindo, porém dentro do intervalo de tempo entre o nascimento e a saída do plano terreno.

Esta assunto não é de fácil abordagem, motivo pelo qual outras postagens futuras buscarão complementar questões correlatas, que não podem ser esquecidas, pois pertencem a um universo muito mais amplo de conhecimento, que demanda certo tempo de estudo para serem absorvidas. Ainda assim não há um consenso, mas aqueles que buscam com firmeza, terminam encontrando a resposta, descobrindo também que não é nada fácil (sendo, ao certo, impossível) tentar transmiti-la aos mais novos que buscam respostas nestas sendas.

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