Caridade Não é Negociata

Diversas organizações no Brasil costumam pregar a caridade, realizando, conforme próprias perspectivas, trabalhos voltados a manutenção da vida de pessoas desamparadas, que de uma maneira ou de outra não foram contempladas com recursos financeiros neste sistema socioeconômico moderno. Entretanto, diferentemente do que muitos acreditam, praticar gestos caridosos dispensa qualquer interesse subjacente, seja de cunho religioso, político, ideológico etc. Ajudar alguém visando um benefício futuro, mesmo discretamente, continua sendo cármico e imoral.

A Epítome Ontológica Universal
Persuadir pessoas carentes, incapazes de proverem suas necessidades básicas, dentre essas a alimentação, visando tirar proveito para uma falsa imagem positiva da própria organização corrobora muito mais com a negociata do que com a caridade. Infelizmente existem pessoas que simplesmente desconhecem a genuinidade.

Caridade dispensa qualquer tipo de troca, mesmo que sejam de caráter imaterial. Existem pessoas que pensam que, porque estão doando algo à alguém, possuem o direito de cobrarem destes engajamento para com as suas crenças, sejam elas quais forem. Acontece que doação pressupõe desapego e uma característica muito importante: empatia.

Poderia este Enquirídio trazer qualquer exemplo sobre o que é a empatia como requisito indispensável à caridade, mas optou por se restringir ao que disse o Nazareno quando proferia as bem-aventuranças no Sermão da Montanha: "bem-aventurados são os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia". Verdade que afasta qualquer subjetivismo. Acerca disto o próprio Buda já havia se pronunciado: "a verdadeira caridade só ocorre quando não há a noção de dar, de doador ou de doação".

Quando alguém tem necessidade, pedir algo em troca, por vezes independentemente do teor do pedido, parecerá de fácil obtenção, pois mediante fragilidade e risco à vida, qualquer pessoa se torna um alvo exposto, incapaz de recusar uma oferta, mesmo que esta lhe condicione a algo indesejado, seja por meio físico ou mental. Confúcio certa vez demonstrou que a caridade precisa representar um ganho humano real para o carente, capaz de modificar sua condição degradada, pois, somente com o condicionamento através da doação meramente material, aqueles seres se tornarão dependentes e incapazes de buscarem a autovalorização. Certamente isto está muito mais ligado com a qualidade do gesto do que com a realidade cotidiana, quando por meio de uma simples atitude, porém realizada com empatia e espontaneidade, perspectivas são mudadas para melhor. Desta forma, aquele que pratica a negociata imaginando estar doando, realmente em absolutamente nada ajudará. Talvez de maneira passageira, restando para os demais momento a falta de condições para exercer a humanidade. Doar, acima de tudo, deve ser ágape: incondicional.

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