A Culpa é Dele, Não Minha!

É muito fácil jogar a culpa nos demais. Embora existam inúmeros problemas causados por diversas pessoas, geralmente é mais conveniente despejar os encargos das coisas num completo estranho ao ter que buscar dentro de si aquela parcela de responsabilidade sobre isto ou aquilo ter acontecido. Esta reação parece ser ampliada ao lado doutros que também pensam da mesma maneira, como se tudo conspirasse contra eles. Contudo, basta perceber que o que muda é a perspectiva. Mudando a forma de se enxergar, talvez o maior culpado seja o próprio acusador.

A Epítome Ontológica Universal
Na própria Gênesis bíblica há uma narrativa bem icônica sobre culpar os outros. Interpretações à parte, Eva terceiriza sua irresponsabilidade integralmente para a serpete, quando lhe cabia recusar qualquer oferta advinda daquela árvore por comando divino inquestionável. Não é de hoje que a terceirização da culpa acontece.

Bhagwan Shree Rajneesh, mais conhecido por Osho, buscando facilitar os Upanishads, expõe a seguinte construção: "mas nunca nos achamos responsáveis pela decepção; o outro, a situação ou o objeto é que é o responsável. Recriamos a ilusão e de novo não temos a culpa; a culpa é do outro, do objeto, do amante, do mundo".

Adiante, Osho continua dizendo que: "isso acontece porque o projetor está dentro de nós. Nunca tomamos consciência dele, só percebemos a cena projetada, o fenômeno projetado. Tal como numa sala de cinema, o projetor está lá atrás; ninguém se vira para olhá-lo. Todos miram a tela, onde veem imagens projetadas. O real, o poder permanece atrás de nós; o filme, a capacidade de projetar permanecem às nossas costas - mas ninguém olha para o projetor, olha apenas para a tela".

Desta forma, parece realmente fácil lidar com a vida e suas mínimas responsabilidades quando não se precisa observar sua parcela de culpa acerca de tudo o que existe. Ninguém, por mais delegador que seja, poderá despejar a própria culpabilidade perante a consciência, que apesar de parecer não existir, resta recobrada depois de um certo tempo. Daí podem surgir sentimentos de injustiça ou arrependimento, mas também é a deixa perfeita para buscar um novo culpado para tudo isso, isentando-se, mais uma vez, daquela razão um dia retomada.

Uma ótima adaptação literária para o cinema, já que, de certo modo, falou-se em tela e projetor, que consegue transmitir toda essa questão sobre "e agora, em quem vamos colocar a culpa", foi o filme O Senhor das Moscas de 1990. Obviamente, não cabe a este Enquirídio contar a moral da história, motivo pelo qual apela para que seu leitor doe cerca de uma hora e meia, caso não queira ler o livro de Willian Golding, para assistir ao clássico. Também não adianta pular diretamente para o final, pois somente o contexto revelará a mensagem central do que a ideia pretende passar.

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