Riddikulus, um Feitiço Contra o Ego

Se você está familiarizado com o universo fantástico criado por J. K. Rowling, mais precisamente sobre os acontecimentos de Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, certamente deve estar se perguntando: como algo fictício pode trazer soluções para a realidade? Mesmo que esta não tenha sido a sua primeira indagação ao ler o título desta postagem, ao menos serve de introdução para um novo questionamento: qual a relação entre o feitiço Riddikulus e o ego? Literariamente, nada! Contudo, semioticamente é possível analisá-lo com base em arquétipos.

No terceiro livro da série Harry Potter, o leitor é apresentado ao novo professor de Defesa Contra as Artes das Trevas, Remo John Lupin, responsável por apresentar ao protagonista da série, bem como aos seus colegas em Hogwarts, um feitiço contra o famoso bicho-papão. Além da brilhante didática (lembrando aqui o jargão icônico do jovem Weasley, utilizado sempre ao se surpreender com algo extraordinário) adotada para transmitir seus conhecimentos mágicos, o que mais impressiona naquela lição é a perfeita analogia que se pode desenvolver entre aquele monstro e o id.

A Epítome Ontológica Universal
Segundo as explicações do professor Lupin, "bichos-papões gostam de lugares escuros e fechados" - como um armário, por exemplo. Estas criaturas buscam nas obscuridades e obstruções esconderijos para se refugiarem. Ou seja, áreas iluminadas e abertas certamente não são propensas ao seu abrigo.

Em sequência, o professor Lupin questiona a natureza deste mostro. Afinal, o que é um bicho-papão? Obviamente, Hermione é quem expõe a melhor definição: "é um transformista, capaz de assumir a forma do que achar que pode nos assustar mais" - e esta interpretação do medo se relaciona com o conceito de id como influência ao ego.

Imagine agora que o armário utilizado pelo professor Lupin (para aprisionar aquele monstro em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban) represente os lugares mais obscuros e inacessíveis da sua mente e que todas as experiências negativas, conceitos pré-estabelecidos e influências contraídas simbolize o bicho-papão. Até aqui tudo bem, certo? Entretanto, antes de prosseguir nesta postagem, recomenda-se a leitura da publicação Você Consegue Suportar o Seu Ego?

De acordo com a Teoria da Psicanálise desenvolvida por Sigmund Freud, o id (cuja tradução do alemão para o português não ajuda muito) é o pressuposto do ego. Enquanto aquele representa os impulsos primários, este caracteriza os sentidos concretos. Para simplificar a linguagem, observe as explicações do professor Lupin sobre as condições ideais de alojamento para o bicho-papão, bem como a definição exposta por Hermione, principalmente sobre sua capacidade de transformação. Estes conceitos podem parecerem difíceis, mas não são!

Como se sabe, o id representa os impulsos primários. Dentre eles, o medo, pormenorizado na postagem O Mestre Marcial Perfeito. Este sentimento é capaz de se alojar em lugares escuros e fechados da mente, motivo pelo qual seu comportamento é extremamente parecido com o do bicho-papão. Aliás, este nome é bastante sugestivo, uma vez que lembranças positivas podem ser devoradas pela sensação de temeridade - como o Engrama (link da publicação em breve), uma espécie de marca duradoura nos tecidos nervosos do cérebro, ocasionada principalmente por fortes estímulos exteriores.

A Epítome Ontológica Universal
Assim como o bicho-papão, o id percebe os seus medos e os projeta ao ego como se fossem parte da realidade. Ou seja, uma experiencia negativa, embora se apresente apenas como uma vaga lembrança de algo que aconteceu (se é que foi real), pode ser (re)materializada pela relação entre estas duas estruturas do "aparelho psíquico".

Não foi à toa que J. K. Rowling denominou o feitiço contra o bicho-papão de Riddikulus. Preste bastante atenção: como um pensamento obscurecido e trancafiado nos mais remotos calabouços da mente consegue fazer com que uma mentira, uma criação ou uma sombra se concretize em sua vida como se fosse algo real?

É certo que a Teoria da Psicanálise possui bases cartesianas, motivo pelo qual os exemplos utilizados sobre id e ego corroboram apenas para com a compreensão da divisão entre a origem e o destino. Desta forma, o feitiço Riddikulus não deve ser tratado como uma solução contra o início do problema inconsciente (o armário, em analogia aproximada), mas contra o final da questão consciente (a forma assumida pelo bicho-papão). Ou seja, a criatura é tão somente um fio condutor para a exteriorização de algo imaterial, mesmo em níveis mentais - e isto ocorre com quase tudo, desde pensamentos destrutivos até vontades incontroláveis. Há quem projete suas ficções no plano fático como se fossem verdades absolutas, mesmo que estas lhe inflijam fobia, pavor, pânico. De acordo com O Mestre Marcial Perfeito, representado pelo arquétipo do Yoda, "o medo leva a raiva, a raiva leva ao ódio, o ódio leva ao sofrimento". Não há como se livrar de ideias irracionais, decorrentes de possíveis frustrações passadas ou anseios futuros, de maneira racional. Isto somente o desgastará.

Quando um pensamento sair daquele lugar escuro e fechado da sua mente, não permita que a forma adotada por ele consiga lhe convencer sobre a sua pseudo-realidade, pois é mentira. Riddikulus! Ridicularize seu ego, pois este estará contaminado por uma id desprovida de veracidade, por um impulso primário. Transforme-o na coisa mais ridícula que possa existir! Mesmo que não suma inicialmente, será questão de conhecimento (análise, estudo, observação etc.) até que ele não mais consiga encontrar as condições ideais para novamente se refugiar.

2 comentários:

  1. Saudações,
    Delis Rosa.

    Sempre que possível este Enquirídio tenta trazer analogias através de conteúdos mais cotidianos, buscando sempre extrair informações que geralmente passam despercebidas ou desprovidas de correlações imediatas - e Harry Potter possui várias ideias profundas!

    Gratidão pelo comentário,
    Com votos de Paz Profunda,

    Enquirídio
    A Epítome Ontológica Universal
    www.enquiridio.org

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