Canalização, a Supremacia Marcial

Esta é a segunda publicação deste Enquirídio com tema voltado ao conhecimento marcial. Se você já leu O Mestre Marcial Perfeito, sabe que nesta postagem não há informações técnicas ou históricas sobre estas artes, mas tão somente aquilo que qualquer pessoa poderá perceber ao observar os princípios fundamentais dos mais variados estilos de autodefesa sobreviventes à modernização, geralmente depreciadas por algumas organizações mundiais para que se pareçam apenas como meros esportes competitivos, cujo objetivo, além do óbvio (leia-se financeiro), é fazer com que o outro perca.

Antes de adentrar no foco desta postagem, é preciso explicar uma questão muito importante, por vezes polemizada pela falta adequada de conhecimento. Embora as artes marciais possuam ricas doutrinas, englobando aqui suas filosofias, psicologias, ideias, práticas etc, todas possuem um fim em comum: a autodefesa. Ninguém será capaz de se defender sem conhecer a violência de uma agressão. Isto é um fato, mas também não significa dizer que só sendo agressivo é possível absorver as técnicas necessárias para realizar uma defesa - isto seria um equívoco.

Para este Enquirídio, agressão e violência são coisas completamente distintas. Enquanto aquela significa intuito (vontade), esta se define por intensidade (proporção). Ou seja, um golpe pode ser rápido (violento), porém sem nenhuma intenção de gerar dano (agressividade). Contudo, alguém poderá tentar agredir (com vontade de machucar) alguém, mas sem conseguir violentar (causar dano) por não utilizar a força suficientemente. Desta forma, é possível compreender que estas duas qualidades podem estar presentes num mesmo contexto e serem diferentes.

Uma das regras máximas do Karate-Dō, por exemplo, adverte ao artista marcial para que "contenha o espírito de agressão". Isto não seria o mesmo que, conforme a gíria moderna, "pegar leve". Muito pelo contrário! O instrutor se valerá da violência (com moderação a depender do nível do praticante) para instruí-lo à autodefesa, golpeando-o de forma a captar toda a doutrina num único momento. Obviamente, todo o processo será repetido diversas vezes até que o pupilo consiga provar ao mestre que este já pode aumentar a intensidade, contudo, sem nunca terem agredido um ao outro.

Depois de alguns anos de prática, um verdadeiro artista marcial aprende que a autodefesa não consiste num processo de bloqueio seguido por um contra ataque imediato (sendo esta a segunda melhor opção, estrategicamente falando), mas de canalização. Não há no Jūdō, por exemplo, uma técnica que não advenha deste princípio básico. Bloquear não é uma possibilidade fisicamente válida, uma vez que, para tanto, é preciso despender força equivalente a do oponente, sendo esta uma enorme desvantagem quando se pode evitá-la.

Assim como um pupilo marcial, você também poderá aprender muito com a canalização. Tal ensinamento não é próprio deste Enquirídio, muito menos de qualquer um outro mestre oriental. Foi a natureza quem se encarregou de preparar esta lição. Para tanto, basta observar o comportamento das águas em um rio.

As águas de um rio, por mais intensas que sejam, não possuem intuito de agredir as formas de vidas que nelas habitam ou os seres ao seu redor. Já parou pra pensar que não há um único afluxo em linha reta? Isto, pois as correntes fluviais sempre se esquivam dos obstáculos, evitando o desperdício de força.

Uma pessoa que se comporta como um rio sempre se esquiva das agressões cotidianas, sejam estas de ordem física ou mental. Como as técnicas do Aikidō, é possível canalizar uma força para longe de si ou transformá-la em algo útil. Por exemplo, se você já assistiu algum filme da série Star Wars, certamente sabe que um Cavaleiro Jedi procura se desviar de tiros de plasma os direcionando contra quem o disparou ou alvos mais prioritários à sua volta - princípio encontrado em todas as artes marciais.

Tenzin Gyatso, o 14º Dalai Lama, certa vez disse para "não permitir que o comportamento dos outros tire a sua paz". Esta é a recomendação para quem busca aprender a resolver seus problemas com a canalização. Isto não significa impedir a ação de outrem. Trata-se de se desviar, sobre tudo, antes de entrar numa rota de colisão - e evitar é muito diferente de fugir. Assim, se algum trabalho lhe estressa, não deixe que isto lhe impeça de concluir suas obrigações. Se for possível, use esta condição em seu favor ou a dissolva antes de prosseguir -  processo a ser tratado numa outra postagem.

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