A Filosofia Oriental e o Movimento Centrífugo

Por que a filosofia oriental, mais precisamente aquelas baseadas nas doutrinas Zen, Taoistas e Budistas (não em suas religiões, mas em suas essências), às vezes se mostram tão inacessíveis ao conhecimento ocidental? Embora centenas de livros já se encontrem traduzidos para os principais idiomas do mundo contemporâneo, parafraseados pelos mais eminentes escritores da literatura internacional, tal forma de pensar ainda continua sendo motivo de grande dúvida, mistério e obscuridade para mentes do ocidente. Será que existe uma explicação?

Um fim em si mesmo
Apenas do conteúdo desta postagem se relacionar diretamente com subjetividade do conhecimento, sua construção se embasa na objetividade da física, que atualmente busca se relacionar com a filosofia oriental para desvendar os "mistérios" (sim, entre aspas) da natureza, principalmente no ramo da mecânica quântica, que já destaca a possibilidade de todo o Universo ser um grande paradoxo, cuja essência somente poderá ser revelada quando não mais for pesquisada, assim como dizia Lao Zi, um dos precursores (mesmo de forma arquetípica, pois ele poder ser uma figura mitológica) da mentalidade taoista através do Wu Wei (link da publicação em breve).

Somente para ilustrar, Wu Wei, um dos princípios centrais do Taoismo, grosseiramente significa Agir-Sem-Agir. Obviamente isso será muito bem explicado num outro artigo, mas já dá pra entender como pensa Lao Zi? Por que o paradoxo, ou seja, uma ideia que aparentemente se contraria, permeia a mentalidade deste sábio ancião? Poder-se-ia dizer que se trata de mais um louco, se Sidarta Gautama, o Buda, não tivesse dito o mesmo, porém com outras palavras. Aliás, o próprio ocidente possui uma figura de inspiração que ainda resta incompreendida, mas que captou (e muito bem) a essência do oriente. Sim, ou você acha que os Ensinamentos Essênios das Bem Aventuranças não são paradoxais? Por exemplo, num mundo caótico como este (e isto é apenas uma maneira pessimista de se perceber), dizer que "felizes são os mansos porque herdarão a terra" não faz sentido, já que os "ganhadores" (sim, mais aspas) estão disputando, competindo, jogando uns contra os outros. Como estar tranquilo num canto desses?

Sim, é exatamente sobre estas questões que os conceitos da física objetiva se fazem necessários, pois o pensamento ocidental ainda se debruça em demasia sobre a ética e a moral, quando em verdade uma faz parte da outra - e vice e versa. Ou seja, a mentalidade ocidentalizada (e contemporaneamente o mesmo ocorre nos países orientais por influência do ocidente) insiste no movimento centrípeto, realizado de fora para dentro, buscando absorver conteúdo nas superficialidades das coisas para preencher sua interioridade. Isto não é como o "Vazio" da Parábola da Xícara de Chá.

Só sei que nada sei
Certamente você conhece a expressão "só sei que nada sei", certo? Ela é atribuída ao filósofo grego Sócrates, outro excelente exemplo de pensamento de movimento centrífugo, assim como a do Nazareno ou Lao Zi. Isto soa como alguém que se depara com Verdade Suprema e compreende que não há como medir o imensurável. Também não significa dizer que ele não possuía conhecimento algum. Desta forma, mais uma vez o paradoxo existencial se faz presente, motivo pelo qual é possível perceber que esta perspectiva filosófica não é exclusiva do oriente. E por filosofia, caso esta palavra por algum motivo lhe seja sinônimo de algo chato, entende-se amor pelo saber.

Na física, um movimento centrípeto é aquele cuja força converge paro o centro, ou seja, de fora para dentro, como a água que escorre em redemoinho pelo ralo da pia. Inversamente, um movimento centrífugo é aquele cuja força (ou "pseudoforça", como queiram) diverge para a extremidade, ou seja, de dentro para fora, como a mecânica de uma máquina de lavar, que por conta da inércia (princípio afirmado por Galileu Galiei e reafirmado por Isaac Newton), joga as peças de roupa contra a estrutura circular metálica da centrífuga (e por isso seu nome é mais do que óbvio). Antes de prosseguir com o tema, é preciso realmente adentrar nas questões teóricas deste argumento com base em observações práticas reais, tal qual se faz num laboratório de experimentos de uma escola ou universidade. Isto, pois os exemplos, até então, ainda precisam de alguns elementos científicos ou reproduzíveis para atribuir os devidos fundamentos desta postagem. Tenha paciência e faça a experiência!

Encha uma pia com bastante água (faça isso quando for lavar a louça para não desperdiçar este recurso) e jogue algum objeto muito pequeno e que não afunde (e que também não contribua para entupir as tubulações), como um talo de folha seca (isto para impedir que chegue aos esgotos mais lixo não degradável). Agora abra o ralo e acompanhe o movimento de redemoinho gerado pela força centrípeta. Observe que aquele pedacinho, mesmo que não passe pelo buraco rumo aos canos, inevitavelmente permanecerá atraído por aquela corrente.

Agora consiga algo achatado e redondo que gire sobre um ponto central de apoio. Esta experiência pode ser realizada numa vitrola, caso lhe seja acessível (calma, pois não irá gerar qualquer dano). Ponha sobre um disco um pequeno grão de areia e ligue o tocador. Será possível observar que a partícula se moverá para fora do vinil, como se estivesse sendo expulsa. Isto se deve a perda da aderência do objeto com a superfície. Por isto dizem que o movimento de centrífuga é gerado pela inércia, uma vez que o objeto, ao se descolar do plano, não possui nenhuma força em ação.

Movimento Centrífugo
Voltando ao assunto principal, o que estas informações puramente técnicas tem a ver com a filosofia oriental? Praticamente Tudo! Observe a imagem do respingo d'água e tente captar sua mensagem. Se você conseguiu perceber que seu movimento se dá de dentro para fora, ótimo! Contudo, observe também que a gota que cai ao centro forma ondas. Em verdade, ela não cria este efeito, pois o todo é quem se expande para abrigar aquela nova porção - e este é o grandioso enigma que os místicos do oriente (e alguns do ocidente) já haviam decifrado. O conhecimento precisa ser expansivo, mas só o é quando se parte do núcleo para os extremos.

O modo de pensar ocidental, neste instante em fase de globalização, interage condicionalmente com o movimento centrípeto, agarrando-se em conceitos predeterminados e sintéticos para a obtenção de conhecimentos materializados, que podem (e devem) ser engarrafados e vendidos em supermercados. Para adquiri-los, basta comprá-los. Trata-se de uma corrente que literalmente o levará diretamente ao ralo, fazendo-o descer água abaixo.

Diferentemente, o pensamento advindo do oriente (e hoje ele se faz presente na cultura ocidental) não buscar se prender em correntes, pois seu movimento não é de fora para dentro. Ele não se origina na superfície ou através de questões exteriores. Surge simplesmente das profundezas do Ser, dos pontos mais intrínsecos da alma. A filosofia que vem do leste para o oeste coagula valores interiores, motivo pelo qual fatores externos são respostas naturais que somente precisam ser respeitadas.

Quando todos os referenciais de uma pessoa são exteriores, torna-se muito difícil compreender a si mesmo. Por isto o Zen, o Taoismo e o Budismo, na visão de muitos, são inatingíveis. Seria necessário dedicar uma vida inteira para captar seus conceitos e, daí então, observar seu próprio interior. Dizem que somente um monge treinado consegue tal proeza, mas antes de tornar-se um, a natureza já existia. É como a gravidade: ela sempre existiu, mesmo antes de sua "descoberta" (aspas óbvias). A única dificuldade está em se adaptar aos movimentos naturais, a filosofia oriental em sua gênese.

Nascer de dentro para fora
Seu nascimento se deu por um movimento centrífugo assim como o do tronco da mais frondosa árvore, cujos anéis concêntricos revelam seu amadurecimento. Como uma muda se torna algo tão grandioso e belo senão por meio de forças que agem de dentro para fora? Desta mesma maneira nascem todas as coisas na Terra, incluindo você.

A natureza o respeita, pois lhe dá a brecha necessária para que você aconteça. Uma árvore não precisa se espelhar em outra para viver. Isto significa que ela não se importa com os galhos, as folhas e flores das outras. Ela simplesmente aceita a existência alheia em sua forma original, pois tudo que necessita está em si mesma.

Tudo na natureza possui movimento centrífugo, inclusive uma fissura que se abre num lago, fazendo com que todo seu líquido seja drenada para o solo. Você poderia questionar: mas aquela ideia de redemoinho não possui força centrípeta? Elementar... Mas do ponto de vista da água, ela simplesmente foge, como aquela areia que se desprende de cima do disco com o giro da radiola. O mesmo acontece com o rompimento do chão, que nada mais é do que a necessidade expansiva do terreno.

Para quem busca conhecer os mistérios deste Universo através do movimento centrífugo, voltando-se para o seu âmago, não precisará declarar vitórias, pois será sempre um ganhador. Ganha aquele que se mantém pacífico diante da natureza, quem jamais se deixará levar por correntes, quaisquer que sejam estas. Será mais sábio, pois estará livre para pensar com a sua própria mente, transformando as adversidades do mundo em conhecimento. Este é o caminho do templo natural do coração de cada Ser, onde os monges modernos treinam suas mentes.

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